Alívio nos preços impulsiona expectativa de redução da Selic
A inflação brasileira surpreendeu positivamente o mercado financeiro ao registrar uma alta de apenas 0,16% em junho, ficando bem abaixo da expectativa de 0,31% e do resultado anterior de 0,58% em maio. De acordo com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) divulgado pelo IBGE, trata-se da menor taxa para junho em três anos, sinalizando uma desaceleração significativa nos preços ao consumidor.
Este resultado reforça as avaliações de economistas de que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central poderá implementar um corte de 0,25 ponto percentual na Taxa Selic durante a reunião marcada para 4 e 5 de agosto. Atualmente, a taxa básica de juros está fixada em 14,25% ao ano.
Queda nos alimentos e combustíveis alivia pressão inflacionária
A principal responsável pelo recuo inflacionário foi a redução nos preços de alimentos e combustíveis. O grupo Alimentação e bebidas, que representa mais de 20% do orçamento familiar brasileiro, recuou 0,25%, registrando a primeira deflação nesta categoria desde novembro do ano anterior. Simultaneamente, os combustíveis tiveram retração de 0,48%, aliviando significativamente a pressão nos preços gerais.
Segundo Fernando Gonçalves, gerente do IPCA no IBGE, a maior oferta de itens alimentares e a tendência de redução dos combustíveis contribuíram para aliviar o orçamento das famílias. Os preços de diesel e gasolina haviam disparado nos meses anteriores devido ao conflito no Oriente Médio, que impactou o mercado internacional de petróleo, além de problemas climáticos que afetaram a produção agrícola.
Comportamento dos serviços e pressões residuais
Apesar do alívio geral, nem todos os setores acompanharam a desaceleração. O grupo Habitação apresentou alta de 0,63%, puxado principalmente pelo aumento nas contas de energia elétrica. Porém, a conta de luz desacelerou em relação ao mês anterior, passando de 3,67% em maio para 1,53% em junho.
Os serviços tiveram variação de 0,34% em junho, inferior aos 0,4% de maio. A refeição fora de casa recuou significativamente, de 0,49% para 0,15%, reduzindo a pressão nos custos de alimentação externa. No entanto, outros serviços como passagens aéreas subiram de 3,2% para 7%, e o transporte por aplicativo aumentou de 0,56% para 1,8%.
Análise dos economistas sobre o cenário futuro
Matheus Pizzani, economista do PicPay, destacou que o resultado pode oferecer mais segurança ao Banco Central para decidir pelo corte de juros na próxima reunião. Além do desempenho geral inferior às projeções da instituição, os núcleos de inflação, que captam a tendência dos preços excluindo itens mais voláteis, também apresentaram comportamento favorável.
Basiliki Litvac, economista especialista em inflação da XP, ressaltou que a surpresa positiva veio de fatores não totalmente incorporados às projeções anteriores, como os recuos inesperados nos preços de alimentos in natura e carnes. Luciana Rabelo, do Itaú Unibanco, também percebeu uma composição melhor da inflação, especialmente em serviços ligados à demanda, como alimentação fora do domicílio e aluguel.
Preocupações com riscos futuros
Apesar do otimismo, economistas alertam para possíveis pressões futuras. A possibilidade da formação do fenômeno El Niño no segundo semestre, potencialmente o mais intenso em 75 anos segundo o Centro de Previsão Climática da NOAA, pode impulsionar novamente os preços dos alimentos. Além disso, o mercado de trabalho aquecido e a inflação de serviços intensivos em mão de obra permanecem como pontos de atenção.
Cenário acumulado e perspectivas
No acumulado do ano, o IPCA registra alta de 3,36%, o maior índice desde 2022. Nos últimos 12 meses, a inflação está em 4,64%, acima do teto da meta estabelecida pelo Banco Central de 4,5%. Economistas mantêm projeções cautelosas para o futuro, considerando possíveis pressões nos custos dos bens industriais e a necessidade de acompanhar de perto a evolução dos preços de serviços para garantir a convergência da inflação para a meta oficial.
