Home BrasilFarmar Aura: Entenda a Gíria que Inspira Campeonatos de Jovens em Todo Brasil

Farmar Aura: Entenda a Gíria que Inspira Campeonatos de Jovens em Todo Brasil

by Guilherme Salles

O Fenômeno de Farmar Aura Entre os Jovens Brasileiros

Um movimento peculiar tem tomado conta de cidades brasileiras: adolescentes e jovens se reúnem em praças públicas para disputar quem consegue “farmar aura” melhor. Na pequena cidade de Cametá, no Pará, uma cena ilustrou perfeitamente essa tendência. Enquanto alguns adultos debochavam, questionando se “esta geração vai pagar minha aposentadoria”, dezenas de jovens realizavam coreografias, poses e acrobacias em busca do título de Rei da Aura. O evento gerou tanta repercussão nas redes sociais que uma segunda edição do Campeonato de Farmar Aura foi agendada, e cenas similares se repetem em diferentes regiões do país.

O Significado por Trás da Expressão

Para quem nunca ouviu falar, “farmar aura” significa acumular pontos de presença e personalidade, buscando ser o melhor no que faz. A expressão nasceu nos videogames, particularmente em títulos como Minecraft e League of Legends. O verbo em inglês “to farm” — que designa cultivar e acumular recursos repetitivamente — ganhou uma versão adaptada ao português: “farmar”. Posteriormente, juntou-se a “aura”, palavra que nas redes sociais assumiu a conotação de carisma, astral e capacidade de impressionar.

Dessa combinação surgiram subexpressões relacionadas. “Sigma” define a pessoa bem-sucedida em farmar aura, enquanto “beta” caracteriza quem não segue o estilo da vez. O organizador do campeonato em Cametá, Gabriel Almeida, de 19 anos, conhecido como Bigode, explica: “Farmar aura significa acumular pontos de presença ou personalidade e ser o melhor no que faz”.

Uma Questão de Reputação e Imagem

Mais que uma invencionice linguística, a gíria traduz um modo de vida de quem nasceu no país nas últimas duas décadas. O conceito se estende para além das telas: em vez de acumular moedas e pontos em videogames, o objetivo passa a ser cultivar uma imagem capaz de render prestígio, admiração e reconhecimento. Isso pode envolver desde usar o tênis da moda até executar uma coreografia arrojada.

O ator mirim e influenciador digital Isaac Amendoim, de 13 anos, com mais de quatro milhões de seguidores no Instagram, reforça: “Farmar aura é tipo construir uma reputação boa na parada. Ser gente boa com a galera já aumenta a sua aura. Mas para melhorar, tem que zerar uma fase difícil de um jogo na frente dos amigos ou fazer um passe de bola complicado”.

A Transformação do Conceito de Aura

Acadêmicos apontam que não é casual o uso da palavra “aura”. O filósofo Walter Benjamin popularizou o termo para denominar o caráter singular e irrepetível de uma obra de arte. Agora, porém, o conceito adquire um sentido quase inverso. Em vez de designar uma qualidade excepcional, passa a indicar um ativo que pode ser cultivado deliberadamente.

O psicanalista Christian Dunker comenta: “As gerações que nasceram com a gramática do videogame descobriram que é muito importante acumular uma espécie de mais-valia da própria imagem. Tudo aquilo que alguém faria espontânea ou autenticamente pode ser usado para farmar aura. Você não lê um livro, mas anda com ele embaixo do braço; não toma café, mas vai à cafeteria da moda”.

Empréstimos Linguísticos e Evolução da Língua

Toda vez que uma palavra estrangeira enche a boca de crianças e adolescentes, surge o medo apocalíptico do fim do português. Entretanto, a língua portuguesa sempre conviveu com empréstimos linguísticos vindos do árabe, francês, italiano e inglês. “Farmar” apenas repete um mecanismo recorrente: uma palavra estrangeira é adaptada à fonética e gramática local até parecer familiar.

A linguista Jana Viscardi explica: “Há usos da língua que são comuns a determinadas comunidades e não a outras. A inovação continuada é uma característica de toda e qualquer língua. Em tempos de redes sociais, é natural que os termos circulem rapidamente e também desapareçam com rapidez”. Uma estimativa do filólogo Antonio Houaiss mostrou que o vocabulário português saltou de cerca de 50 mil palavras no século XVI para aproximadamente 500 mil no século XX.

Gírias Como Senhas de Pertencimento

Mais do que nomear comportamentos, gírias funcionam como senhas de pertencimento. Dominar uma expressão é sinalizar afinidade com determinado grupo, geração ou universo. Muitas perdem força quando deixam de circular em nichos específicos e são adotadas por públicos mais amplos.

O linguista Marcos Bagno, autor de “Preconceito Linguístico”, afirma: “Gírias têm a função primordial de marcar distância entre as gerações, e isso se faz pelo emprego de palavras e expressões que só conhece e compreende quem pertence ao grupo”. Se “farmar aura” entrar com recorrência na boca de adultos e idosos, pode deixar de fazer sentido. Em escolas, professores já absorvem o termo para se comunicar com alunos, mas a maioria dos estudantes acha “cringe” esse comportamento.

Outras Expressões que Brotam das Telas

Além de “farmar aura”, outras expressões nascidas do universo dos videogames e redes sociais ganharam força entre a juventude. “6-7” foi eleita palavra do ano em dicionários de língua inglesa em 2025, espalhando-se da China ao Brasil. “Tankar”, derivado de “tank”, significa aguentar algo. “Rushar”, originário de “rush”, refere-se a fazer algo rápido. E “topar” ganhou novo significado: referir-se a quem chegou ao topo ou está “top”.

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