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Fiocruz fecha alojamento estudantil em Jacarepaguá por violência armada; alunos protestam contra decisão

by Guilherme Salles

Decisão unilateral gera mobilização de estudantes

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) anunciou a desativação do alojamento estudantil do Centro de Referência Professor Hélio Fraga (CRPHF), localizado no campus de Jacarepaguá, devido ao agravamento da violência urbana armada na região. A medida afeta aproximadamente 35 estudantes de programas de pós-graduação de diferentes unidades da instituição, gerando intensa mobilização e protesto entre os beneficiários que dependem da moradia para prosseguir com suas pesquisas.

Segundo comunicado oficial da Fiocruz, a instituição acompanhou nos últimos meses a evolução do cenário de violência armada no entorno do alojamento, considerando o aumento significativo do risco à vida e integridade física dos residentes. A decisão resultou na implementação de um plano de desocupação gradual, apresentado aos estudantes em reunião remota realizada no dia 6 de junho.

Auxílio financeiro insuficiente para estudiosos

Como alternativa à permanência no alojamento, a Fiocruz oferecerá um auxílio mensal de R$ 800 para custeio de moradia, com duração inicial de 12 meses e possibilidade de prorrogação por período igual, desde que as condições que motivaram a medida persistam e o estudante mantenha matrícula ativa. Contudo, os pesquisadores argumentam que o valor é insuficiente para custear moradia na cidade do Rio de Janeiro.

A instituição ressaltou que o processo de desocupação será realizado de forma gradual, com acolhimento, espaços de escuta e orientação aos estudantes, visando garantir a continuidade das atividades acadêmicas. O Conselho Deliberativo da Fiocruz acompanhará tanto a implementação da medida quanto a evolução do cenário de segurança que justificou a ação.

Estudantes denunciam falta de consulta prévia

O alojamento abriga estudantes de mestrado, doutorado e especialização em áreas como epidemiologia, biologia e comunicação em saúde, provenientes de diferentes regiões do Brasil e de países como Chile, Colômbia, Guiné-Bissau e Moçambique. Diversos pesquisadores relataram que a decisão foi “unilateral e repentina”, deixando-os preocupados com a continuidade de suas pesquisas.

Dois dias após o anúncio, os estudantes enviaram carta à vice-presidência da Fiocruz solicitando a suspensão imediata da descontinuidade do alojamento até que alternativas viáveis fossem discutidas coletivamente. No documento, argumentaram que a medida foi apresentada “sem consulta prévia aos estudantes” e gerou “intenso sofrimento, crises de ansiedade e pânico” entre os moradores.

A carta destacava que entre os residentes há estudantes negros, indígenas, LGBTQIAPN+ e integrantes de grupos historicamente sub-representados na educação superior, sem familiares ou redes de apoio na cidade e totalmente dependentes do alojamento para continuidade acadêmica.

Contexto de violência intensifica na Zona Sudoeste

A região de Curicica e Grande Jacarepaguá historicamente dominada por grupos milicianos tornou-se palco de guerra de expansão do Comando Vermelho (CV), que busca recuperar territórios perdidos. Milicianos enfraquecidos por prisões e mortes de lideranças firmam alianças inéditas com o Terceiro Comando Puro (TCP) para expulsar o CV de comunidades.

O Centro de Referência Professor Hélio Fraga fica na Estrada de Curicica, principal via do bairro, no entorno de comunidades como Vila Sapê e Dois Irmãos, pontos centrais dos conflitos recentes. A Polícia Militar informa que o 18º BPM realiza ações planejadas e intensifica policiamento com base em análises criminais e levantamentos de inteligência.

Fiocruz enfrenta desafios de segurança recorrentes

A Fundação Oswaldo Cruz, com 126 anos de história em produção de vacinas e combate a epidemias, vê-se cada vez mais impactada pela violência armada do Rio de Janeiro. O Campus Manguinhos-Maré, com 800 mil metros quadrados, localiza-se entre comunidades dominadas pelo CV e TCP, resultando em dezenas de episódios de tiroteios que afetam funcionários e estudantes.

Em janeiro de 2025, durante operação policial, um projétil atingiu janela de unidade e feriu funcionária. A instituição reforçou protocolo de segurança para evacuação de mais de 200 prédios em casos de confrontos armados, orientando trabalho remoto emergencial em dias de operações policiais intensas.

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