Home BrasilPreso no aeroporto a caminho de Malta: as mensagens que a PF achou no celular do dono do Master

Preso no aeroporto a caminho de Malta: as mensagens que a PF achou no celular do dono do Master

Conversas extraídas pela Polícia Federal indicam que o dono do Banco Master acompanhava passo a passo o avanço da Operação Compliance Zero; ministro e defesa não se manifestaram.

by Guilherme Salles

Dois dias antes de ser preso no Aeroporto de Guarulhos, o banqueiro Daniel Vorcaro escreveu ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes para saber se já era hora de sair do Brasil. “Acha que segunda já tenho que estar fora?”, perguntou no sábado, 15 de novembro de 2025. As mensagens foram extraídas do celular do banqueiro pela Polícia Federal e divulgadas nesta terça-feira (1º) pelo jornal O Estado de S. Paulo.

O que está nas mensagens

Segundo o Estadão, a troca de mensagens começou em 4 de novembro de 2025 e foi ficando mais intensa conforme a data da operação se aproximava. Para os investigadores, o teor das conversas permite deduzir que o ministro repassava ao banqueiro informações sensíveis sobre o andamento da primeira fase da Operação Compliance Zero, incluindo datas e horários prováveis de diligências da PF.

Na mesma sequência do dia 15, Vorcaro emendou perguntas sobre quem estava conduzindo o caso, se o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, já tinha conhecimento da ação e se ainda haveria alguma coisa a ser feita.

No dia 16, um domingo, véspera da prisão, ele voltou a procurar o ministro querendo saber se havia chance de a operação acontecer na manhã seguinte. Na manhã do dia 17, por volta das 7h20, disse estar tentando antecipar a entrada de investidores no banco e acreditar que conseguiria assinar e anunciar parte da venda do Master.

A prisão

O mandado de prisão preventiva só foi assinado às 15h29 daquele mesmo 17 de novembro, pelo juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal. Ou seja: quando Vorcaro fez a primeira pergunta sobre deixar o país, a ordem sequer existia no papel.

Na noite do dia 17, a Polícia Federal localizou o banqueiro no Aeroporto Internacional de São Paulo. Ele se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta e, depois, a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Para os investigadores, a intenção era sair do Brasil.

O detalhe que trava a investigação

Há um buraco no meio dessa história: não se sabe o que Moraes respondeu. As mensagens recuperadas mostram que os dois usavam visualização única e capturas de tela de textos escritos no aplicativo de notas do celular. O método apaga o rastro das respostas e impede que os investigadores remontem o diálogo completo.

Procurados pelo Estadão, o ministro e a defesa de Vorcaro não comentaram o conteúdo das mensagens. O advogado Walfrido Warde, que defendia o banqueiro à época, também não se manifestou; segundo os registros do celular, ele teria telefonado para Moraes horas antes da primeira prisão.

Onde o caso chegou

A Compliance Zero já passou por dez fases. Vorcaro foi preso uma segunda vez em março de 2026, teve duas propostas de delação premiada recusadas e negocia uma terceira. A apuração migrou para o Supremo.

O Banco Central desmontou o conglomerado por etapas a partir de novembro de 2025, depois de identificar insolvência, suspeita de fraude contábil e risco de contágio para outras instituições. Foram liquidados o Banco Master, o Banco Master de Investimento, o Letsbank e a corretora do grupo; em janeiro de 2026 veio a liquidação do Will Bank. O episódio se tornou o maior acionamento da história do Fundo Garantidor de Créditos, com cerca de R$ 41 bilhões reservados para ressarcir clientes.

O rastro no Rio de Janeiro

O caso tem endereço fluminense. O Rioprevidência, autarquia que administra a previdência dos servidores estaduais, informou ter aplicado cerca de R$ 960 milhões em letras financeiras do Master entre outubro de 2023 e agosto de 2024, com vencimento previsto para 2033 e 2034. Letras financeiras não têm cobertura do FGC.

O Tribunal de Contas do Estado calcula uma exposição maior, de até R$ 2,6 bilhões, ao somar aplicações em fundos ligados ao mesmo grupo — algo em torno de um quarto da carteira do fundo. O governo estadual contesta esse número e o Rioprevidência sustenta que o total aplicado é de R$ 960 milhões e que aposentadorias e pensões não correm risco. A autarquia argumenta que, na época dos aportes, o Master tinha autorização para operar e nota “A-” da Fitch.

Em fevereiro, a Justiça do Rio autorizou a retenção dos repasses de consignados descontados da folha de servidores, aposentados e pensionistas até que o estado recomponha o valor investido.


Fontes:

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