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Operação Secreta do Air Force One: Como Trump Enganou Jornalistas em Voo da Turquia

by Guilherme Salles

A Operação de Segurança que Usou Jornalistas como Isca

Em 8 de julho, logo após a cúpula da Otan realizada em Ancara, o presidente Donald Trump foi protagonista de uma operação de segurança altamente sigilosa que colocou jornalistas e funcionários da Casa Branca em uma situação inusitada. De acordo com investigações do Washington Post e New York Times, Trump abandonou secretamente o Air Force One enquanto jornalistas acreditavam estar voando com ele em direção ao Reino Unido.

A manobra foi concebida em poucas horas após autoridades americanas avaliarem como crível uma ameaça iraniana contra o presidente ou contra a aeronave presidencial. O pequeno grupo de autoridades que orquestrou o plano incluía o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, e o secretário de Defesa, Pete Hegseth.

Como Funcionou a Estratégia de Engano

A operação iniciou-se na chegada de Trump ao aeroporto de Ancara. Uma câmera posicionada previamente registrou o presidente entrando no antigo Air Force One, um Boeing 747, pela porta esquerda, à vista dos jornalistas e de outras pessoas na pista. Os repórteres correram para embarcar pela escada traseira, tendo apenas um breve vislumbre do presidente.

No entanto, tudo não passava de uma encenação cuidadosamente planejada. Após os jornalistas embarcarem, Trump foi retirado do avião pelo lado oposto usando um método inusitado: o presidente entrou em um contêiner isotérmico usado para transportar refeições e suprimentos de serviço de bordo, que havia sido içado próximo à aeronave. Este compartimento foi então utilizado para levá-lo para longe dos repórteres, permitindo sua transferência para outro avião.

Trump foi levado a um C-32A, versão militar do Boeing 757 usada pela Força Aérea americana para transportar autoridades de alto escalão. Esta aeronave deixou a Turquia separadamente, levando o presidente em sigilo para o Reino Unido, enquanto o antigo Air Force One decolava com os jornalistas a bordo.

O Mistério das Persianas Fechadas

Durante o voo de Ancara ao Reino Unido, os jornalistas receberam uma orientação inusitada: manter fechadas as persianas das janelas da cabine destinada à imprensa. Nenhuma explicação foi oferecida no momento, e os repórteres não foram informados de que o presidente havia deixado a aeronave.

Michelle Stoddart, repórter da ABC que estava a bordo, relatou que quando um fotógrafo tentou levantar uma persiana, foi rapidamente instruído a baixá-la. Ao questionar o motivo, a equipe da Casa Branca atribuiu a solicitação ao Serviço Secreto, sem fornecer detalhes adicionais.

John Hudson, repórter do Washington Post, explicou à CNN que membros da imprensa não faziam ideia de que o presidente não estava mais no avião em que viajavam. Ele ressaltou que até mesmo alguns funcionários da Casa Branca desconheciam o fato de Trump ter simplesmente saído discretamente.

A Reencenação em Solo Britânico

O Air Force One decolou de Ancara às 22h16 e pousou na base aérea de Mildenhall, no Reino Unido. Trump já havia chegado por outra rota. Antes que os jornalistas percebessem o que havia acontecido, Trump foi transferido de carro do C-32A de volta ao antigo Air Force One.

O presidente reentrou na aeronave por uma entrada diferente e posteriormente desembarcou pela escada superior esquerda, como faria normalmente. Cerca de 40 minutos depois do pouso, caminhou pela pista até o novo avião Boeing 747-8, doado pelo Catar, observado pelos mesmos repórteres que acreditavam ter viajado com ele desde a Turquia.

Justificativas e Revelações Posteriores

Quando questionado pelos repórteres sobre por que haviam viajado no antigo Air Force One até o Reino Unido, Trump afirmou que desejava que as tropas americanas estacionadas na base britânica vissem o novo avião. Sobre as persianas fechadas durante o voo, o presidente disse não ter conhecimento de uma ameaça específica, mas afirmou estar sob constante ameaça do Irã.

Trump declarou aos repórteres: “Eu sou o número um na lista deles, antes de vocês. Mas, se eu for, vocês vão também.” Esta declaração evidencia a seriedade com que o presidente e seus assessores levavam as avaliações de risco à sua segurança.

Preocupações com a Segurança do Novo Avião

Conforme revelado por funcionários americanos, havia preocupações significativas em relação ao jato de luxo doado pelo Catar, que havia sido incorporado recentemente ao aparato de transporte presidencial. As versões mais antigas do Air Force One possuíam capacidades defensivas avançadas que não estavam presentes na nova aeronave.

O New York Times havia publicado uma reportagem sobre essas falhas de segurança antes da operação secreta, o que contextualiza a decisão de Trump de utilizar o antigo avião para a saída da Turquia, segundo a versão apresentada publicamente à época.

Precedentes Históricos e Questões de Transparência

Operações similares já foram utilizadas pelo governo americano em situações de extremo risco. A mais semelhante ocorreu em 2000, quando o então presidente Bill Clinton viajou para Islamabad em um jato militar C-20 sem marcas oficiais, enquanto dois outros C-20 idênticos voavam como chamarizes. Clinton, porém, revelou a estratégia assim que pousou.

A Casa Branca não reconheceu publicamente que Trump havia deixado a Turquia em uma aeronave diferente daquela em que os jornalistas acreditavam estar com ele. A operação só veio a público após o Washington Post identificar o avião que transportava Trump como um C-32A.

O diretor de comunicação da Casa Branca, Steven Cheung, forneceu uma pista sobre a possibilidade de uma operação de dissimulação ao afirmar que o governo utilizava todas as ferramentas disponíveis para lidar com ameaças contra Trump, incluindo “distração e desinformação”. Esta declaração foi posteriormente removida quando a Casa Branca refez o comunicado.

Debate sobre Transparência Presidencial

O caso reacendeu o debate sobre a transparência da Casa Branca em relação à segurança presidencial e sobre até que ponto uma operação destinada a proteger o presidente pode deliberadamente ocultar informações de pessoas que viajam com ele. Ex-agentes do Serviço Secreto argumentam que a segurança do presidente deve ser priorizada em detrimento da transparência pública, enquanto críticos questionam as implicações dessa abordagem para a democracia e o acesso à informação.

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