A Polêmica em Cuiabá
O prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini (PL), tomou a decisão de proibir um campeonato de “farmar aura” que estava agendado para ocorrer no Parque das Águas, um dos principais pontos turísticos da capital mato-grossense. Em entrevista concedida a jornalistas na quinta-feira, o gestor municipal argumentou que o evento não possui “interesse público” e que o espaço deve ser destinado a atividades que “edificam a família”.
Durante sua declaração, Brunini admitiu desconhecer o significado da expressão “farmar aura”, afirmando de forma provocativa: “Não tenho ideia. Eu sou hétero.” Posteriormente, nas redes sociais, o prefeito elaborou sua justificativa, citando 67 motivos para negar a atividade em área pública, destacando questões relacionadas à saúde mental coletiva, falta de interesse público, bem-estar social e preservação adequada do espaço público.
O Que Significa “Farmar Aura”
Farmar aura é uma gíria popular entre a Geração Z que consiste em executar uma pose criativa, realizar um meme ou uma dança com o objetivo de se destacar para o público nas redes sociais e, agora, também em eventos presenciais. A expressão reflete uma tendência contemporânea onde indivíduos buscam cultivar uma imagem capaz de render prestígio e admiração.
No formato de competição, as disputas ocorrem entre participantes em confrontos de um contra um. O vencedor é determinado por quem consegue executar a ação mais impressionante, aquela que gera maior reação e vibração do público presente no evento. Este modelo de competição tem se espalhado por várias cidades do país, gerando grande aglomeração de jovens e gerando debates sobre segurança e uso de espaços públicos.
Origem da Expressão nos Videogames
A gíria “farmar aura” tem suas raízes profundamente conectadas ao universo dos videogames. Em jogos populares como “Minecraft” e “League of Legends”, o verbo em inglês “to farm” — que significa cultivar e está associado a ações repetitivas para acumular recursos, itens e pontos — ganhou uma adaptação para o português com o termo “farmar”.
Posteriormente, esse verbo se uniu ao substantivo “aura”, que no contexto das redes sociais adquiriu a conotação de “carisma”, “astral” ou “capacidade de impressionar”. Dessa combinação linguística surgiram subexpressões complementares: “sigma” designa a pessoa bem-sucedida em farmar aura, enquanto “beta” define aquele que não segue o estilo ou padrão da vez.
Um Reflexo do Estilo de Vida Digital
Mais do que uma simples invencionice linguística, a expressão “farmar aura” traduz um modo de vida inteiro daqueles que nasceram no Brasil nas últimas duas décadas. Representa a extensão do universo dos videogames para a realidade cotidiana, onde o jogo nunca realmente termina. Enquanto nos consoles busca-se acumular moedas, poderes ou pontos para avançar de fases, na vida real o objetivo transforma-se em cultivar uma imagem pessoal capaz de gerar prestígio, admiração e reconhecimento social.
A Perspectiva Acadêmica
Acadêmicos consultados pela imprensa apontam que não é coincidência o uso específico da palavra “aura”. O conceito foi popularizado pelo filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940) para denominar o caráter singular e irrepetível de uma obra de arte — exemplificado pela “Mona Lisa”, cuja originalidade persiste apesar das inúmeras reproduções distribuídas pelo mundo.
Contudo, quando aplicado ao contexto atual da Geração Z, o conceito adquire um sentido quase inverso daquele proposto por Benjamin. Em vez de designar uma qualidade excepcional e inerente, passa a indicar um ativo que pode ser deliberadamente cultivado, trabalhado e desenvolvido através de estratégias de apresentação pessoal e criação de conteúdo.
