A crescente exploração ilegal de serviços de internet tem se tornado um dos principais alvos das investigações relacionadas ao financiamento do crime organizado no Rio de Janeiro. Dados da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública revelam que mais de cem áreas na Região Metropolitana estão sob domínio de grupos criminosos, os quais controlam a oferta clandestina de internet e TV por assinatura.
O levantamento indica que facções ligadas ao tráfico de drogas e milícias estabeleceram seus próprios serviços em regiões onde as operadoras legalizadas enfrentam sérias dificuldades. Em várias comunidades, criminosos armados impedem que técnicos das empresas autorizadas realizem instalações, manutenções ou reparos nos serviços.
Com o aumento desse mercado informal, moradores de bairros adjacentes a áreas dominadas pelo crime têm buscado alternativas para evitar interrupções frequentes no sinal. Uma das soluções adotadas tem sido a contratação de internet via satélite, que não depende de cabeamento terrestre e, portanto, não está sujeita ao controle exercido pelas facções.
Apesar do custo elevado, que varia entre R$ 176 e R$ 401 mensalmente – excluindo os equipamentos necessários para a instalação –, a procura por esse tipo de serviço cresceu nos últimos meses. Segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), na capital fluminense, o número de usuários de internet via satélite saltou de aproximadamente 3 mil em março de 2025 para 6,2 mil em março de 2026.
Essa foi a alternativa escolhida por uma residente da Zona Norte do Rio, cercada por comunidades sob domínio do Comando Vermelho (CV). Relatos indicam que as operadoras tradicionais enfrentam dificuldades recorrentes para oferecer atendimento na área.
As zonas monitoradas pela inteligência da Segurança Pública concentram-se principalmente na cidade do Rio, Baixada Fluminense e no município de São Gonçalo. O material coletado será utilizado nas investigações realizadas por delegacias distritais e especializadas.
As investigações constataram um padrão comum entre os modelos criminosos em diversas localidades: após expulsarem ou inviabilizarem a atuação das empresas regulamentadas, facções e milicianos assumem diretamente o fornecimento de internet e TV a cabo aos moradores.
Em Belford Roxo, uma moradora relatou estar sem internet residencial há quatro dias. Ela afirmou que a operadora informou repetidamente que os técnicos não conseguiam acessar a região devido a questões de segurança.
Belford Roxo ocupa a nona posição em um ranking elaborado com base nas denúncias feitas ao Disque-Denúncia sobre exploração irregular do serviço de internet. As denúncias apontam para a criação de áreas exclusivas por grupos criminosos para barrar a entrada das operadoras autorizadas.
A capital fluminense lidera esse ranking estadual. Entre janeiro e 8 de maio de 2026, foram registradas 279 denúncias relacionadas ao controle ilegal da oferta de internet. Bairros como Campo Grande, Engenho da Rainha, Realengo, Vargem Grande, Jacarepaguá, Praça Seca, Penha Circular, Recreio dos Bandeirantes e Taquara estão entre os mais mencionados.
Nessas áreas atuam facções como o Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP), Amigos dos Amigos (ADA) e diversos grupos milicianos. Outros municípios com alto índice de denúncias incluem São Gonçalo, Duque de Caxias, Niterói, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Itaboraí e Cabo Frio. Também figuram na lista cidades como Japeri, Maricá, Mesquita, Cachoeiras de Macacu, Magé e Araruama.
Um estudo divulgado recentemente revelou que facções criminosas e milícias já controlam diretamente o fornecimento de internet ou exigem taxas das operadoras em pelo menos 37 dos 92 municípios do estado.
As apurações demonstraram ainda que empresas que se negam a pagar as taxas impostas pelos criminosos sofrem represálias. Nos primeiros quatro meses deste ano, veículos e instalações pertencentes às companhias do setor foram incendiados em cidades como Cachoeiras de Macacu, Japeri, Paracambi e Maricá.
A Subsecretaria de Inteligência identificou 18 empresas envolvidas na exploração irregular do serviço somente nas regiões da Muzema e Rio das Pedras no Itanhangá e na Gardênia Azul em Jacarepaguá. Enquanto Muzema e Gardênia Azul são dominadas pelo tráfico local, Rio das Pedras é historicamente ligada à atuação da milícia.
A estimativa do governo estadual aponta que esses grupos criminosos movimentam cerca de R$ 3 milhões mensais apenas nessas áreas. Elas fazem parte do plano apresentado pelo governo do estado ao Supremo Tribunal Federal (STF) para reocupação territorial.
Pablo Sartori, subsecretário de Inteligência da Secretaria de Segurança Pública, comentou que o governo está avaliando soluções tecnológicas para diminuir a dependência do cabeamento controlado por organizações criminosas.
Ele também mencionou que grandes operadoras estão dispostas a discutir a implementação da internet via rádio nas comunidades afetadas. Esse sistema funcionaria semelhante ao sinal da telefonia celular, sem depender da infraestrutura terrestre convencional.
Sartori ressaltou ainda a relevância econômica dessa atividade para o crime organizado: “A exploração da internet é fundamental para a estrutura do crime organizado. Hoje em dia eles conseguem sobreviver sem vender drogas mas não podem abrir mão das atividades econômicas como os serviços relacionados à internet”, afirmou ele.
A Polícia Militar informou que desde 2021 mantém um grupo dedicado com concessionárias para combater furtos e roubos relacionados aos equipamentos além de monitorar regiões onde existem restrições impostas por criminosos. Segundo dados da corporação, apenas em 2025 foram realizadas 427 operações conjuntas resultando em 614 prisões.



