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A busca incessante pela juventude e o receio do envelhecimento

Em artigo, Carla Cabral discute como a obsessão pela juventude alimenta o medo de envelhecer, o idadismo e a exclusão de pessoas 60+. A autora defende uma nova visão sobre longevidade, com autonomia, participação social e valorização de todas as fases da vida.

Divulgue pra geral:

Estamos vivendo mais e essa realidade deveria ser celebrada por todos.

Nunca antes na história da humanidade, tantas pessoas alcançaram idades como 60, 70 e 80 anos com tanta autonomia, capacidade de contribuição e desejo de continuar ativas na vida social, econômica e cultural. De acordo com a ONU, até 2050, o número de indivíduos com 60 anos ou mais ultrapassará 2 bilhões em todo o mundo.

No entanto, esse novo cenário apresenta uma contradição: enquanto a população envelhece, ainda estamos imersos em uma cultura que exalta a juventude como o padrão máximo de beleza, produtividade, inovação e relevância.

É nesse contexto que emergem fenômenos como a gerontofobia e a gerascofobia, que merecem mais atenção. A gerontofobia diz respeito ao medo ou aversão irracional relacionada às pessoas idosas e à velhice. Por sua vez, a gerascofobia envolve o temor de envelhecer. Apesar das diferenças entre elas, ambas revelam uma dificuldade coletiva em lidar com o tempo e a finitude em uma sociedade que promove incessantemente a ideia de juventude eterna.

Enquanto o idadismo se refere ao preconceito social baseado na idade, tanto a gerontofobia quanto a gerascofobia podem manifestar-se de forma patológica. Em situações mais severas, essas aversões podem causar ansiedade intensa, sofrimento emocional, crises de pânico e uma obsessão pela aparência. Isso pode levar à evitação do convívio com idosos e à perda da autonomia. Portanto, não se trata apenas de um comportamento preconceituoso; é uma relação doentia com o envelhecimento que muitas vezes requer ajuda psicológica ou psiquiátrica.

Esses problemas são alimentados por normas culturais que incorporamos no dia a dia sem perceber seus efeitos nocivos. Eles se manifestam em piadas sobre idade avançada, na pressão estética cada vez mais precoce sobre as crianças – como festas infantis que incluem skincare – no aumento do uso do “botox preventivo” antes mesmo dos primeiros sinais de envelhecimento e na valorização excessiva dos idosos que mantêm um corpo musculoso e uma rotina intensa de exercícios físicos.

Ainda podemos observar essa lógica quando alguém evita interagir com pessoas idosas acreditando que “velhice pega” ou quando envelhecer é encarado como um fracasso pessoal que deve ser escondido ou combatido por meio da busca incessante pela juventude.

Essa mentalidade gera consequências profundas. Ela reforça práticas idadistas, aumenta a exclusão social e prejudica a autoestima dos maiores de 60 anos, além de criar uma relação doentia com o próprio envelhecimento. Quando envelhecer é visto como uma derrota, todos acabam vivendo sob constante temor em relação ao futuro.

Existe uma ironia nisso: aqueles que rejeitam a velhice estão na verdade rejeitando seu próprio destino. Envelhecer é parte natural da vida humana e também um privilégio.

Em 2015, a Pfizer contratou o Instituto QualiBest para realizar uma pesquisa sobre o medo do envelhecimento entre os brasileiros. O estudo fez parte da campanha “Envelhecer sem vergonha – qualidade de vida não tem idade”. Foram entrevistadas 989 pessoas entre 18 e 61 anos em diversas regiões do Brasil, revelando que 92% temem envelhecer.

As principais preocupações apontadas estavam ligadas a problemas de saúde, limitações físicas, perda de memória, dificuldades financeiras e solidão. Contudo, um dado interessante foi que 32% dos entrevistados com mais de 51 anos afirmaram que ficar mais velho é melhor do que haviam imaginado.

Mais de dez anos depois dessa pesquisa, parece claro que um dos maiores equívocos da sociedade atual é continuar atribuindo valor apenas ao novo e ao jovem, ignorando algo fundamental: experiência também é poder.

A longevidade ativa surge como um contraponto necessário frente a essa visão restritiva. Ela promove uma nova perspectiva sobre o envelhecimento baseada na autonomia pessoal, envolvimento social contínuo, aprendizado constante e propósito significativo.

Ao longo dessa nova fase da vida, pessoas acima dos 60 anos têm empreendido negócios próprios, mudado de carreira, criado conteúdos diversos, retornado aos estudos e se apaixonado novamente. Histórias inspiradoras desse tipo podem ser encontradas no podcast 60PODmais.

No programa compartilho relatos motivadores de indivíduos que redescobriram novos talentos após se aposentarem. Essas histórias mostram pessoas que abriram empresas ou começaram a ensinar e mentorizar outras gerações através da dança ou escrita.

Esse panorama transforma totalmente a percepção da velhice como um “fim de linha”.

Pode haver também uma ansiedade silenciosa permeando esta geração conhecida como os “novos 60+”.

Estamos diante da primeira geração vivendo uma longevidade tão ampliada e socialmente ativa sem modelos precedentes para guiá-los nesse processo. Estamos moldando novas formas de viver essa etapa da vida.

Ainda assim, enquanto muitos buscam liberdade e relevância nessa fase inédita da vida adulta sênior, outros lidam com pressões constantes para permanecerem produtivos e saudáveis.

Reconheço as contradições presentes no envelhecimento contemporâneo: vivemos mais tempo do que nunca; há inúmeras possibilidades disponíveis; mas também existe uma ansiedade crescente sobre como envelhecer “corretamente” nesse período.

O verdadeiro desafio não reside apenas em viver mais; trata-se de construir uma sociedade preparada emocionalmente para acolher essa nova longevidade.

Isso implica em criar cidades acessíveis para todos os idosos; promover um mercado inclusivo; oferecer educação contínua sobre o envelhecimento; desafiar estereótipos existentes; além de desenvolver compreensões reais e diversas acerca do ato de envelhecer.

No entanto, tudo isso passa por uma mudança significativa na mentalidade coletiva.

Caso continuemos enxergando a velhice apenas sob a ótica da perda, perpetuaremos práticas idadistas bem como as fobias associadas à velhice – resultando em medo constante e invisibilidade social.

Esse paradoxo nos aflige: estamos vivendo mais tempo mas ainda não conseguimos valorizar todas as fases da vida plenamente.

A experiência do envelhecimento não deveria ser motivo para vergonha ou medo; deveria ser reconhecida como o importante marco humano que realmente é.

Lutar contra os medos patológicos relacionados ao envelhecimento e reconfigurar nossa percepção acerca dessa fase vital representa um dos grandes desafios contemporâneos.

O que está ocorrendo não é meramente uma mudança demográfica; trata-se de uma reorganização gradual das bases sociais da nossa estrutura coletiva.

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