Impugnações por associação ao crime organizado aumentam no período eleitoral
O Rio de Janeiro vivencia um momento de intenso escrutínio eleitoral. Ao menos oito candidatos foram alvo de ações de impugnação por associação ao crime organizado desde o início do período de registro de candidaturas na Justiça Eleitoral. Entre os nomes questionados estão o filho de uma deputada investigada por ligação com milícia, o neto de um conhecido contraventor do jogo do bicho e a mulher de um traficante apontado como integrante da liderança do Comando Vermelho em Alagoas.
Estratégia do Ministério Público Eleitoral
A maioria dos pedidos de impugnação parte do Ministério Público Eleitoral (MPE), que se baseia em precedentes consolidados para barrar candidaturas mesmo quando não há condenações formais. As ações foram encaminhadas ao Tribunal Regional Eleitoral do Rio, que deverá decidir até 14 de setembro sobre o prosseguimento de cada caso.
Em seis dos oito casos analisados, o MPE aplica uma interpretação estabelecida pelo Tribunal Superior Eleitoral. De acordo com essa tese, uma candidatura pode ser impedida quando houver elementos demonstrando que uma organização criminosa tenta interferir no processo eleitoral. Importante ressaltar que o simples parentesco não é suficiente: a análise verifica se a candidatura representa continuidade ou extensão da influência política de uma estrutura criminosa.
O caso mais emblemático: Júnior da Lucinha
A tese aparece de forma mais explícita no caso de Tadeu Amorim de Barros Júnior, conhecido como Júnior da Lucinha (PSD). Vereador e filho da deputada estadual Lucinha (PSD), ele é investigado por possível ligação com a milícia de Luís Antônio da Silva Braga, o Zinho. O MPE o aponta como possível continuidade da estrutura política construída pela mãe após ficar sem legenda para sua reeleição.
A ação ministerial compara o desempenho eleitoral de mãe e filho. Em uma escola municipal de Santa Cruz, ambos concentraram 48,1% dos votos nominais, resultado 10,7 vezes superior ao de qualquer outro concorrente, segundo o MPE. A peça cita ainda relatos do Disque-Denúncia sobre intimidação de moradores para comparecimento a eventos políticos e denúncias de que Lucinha realizaria atos acompanhada de homens armados.
A contravenção e o jogo do bicho na disputa
Outro caso que coloca a contravenção no centro das atenções é o de João Felipe Drumond Espíndola de Freitas (PRD), candidato à Assembleia Legislativa e neto do contraventor Luizinho Drumond. A Procuradoria descreve sua candidatura como inserida em uma estrutura familiar e político-territorial relacionada à contravenção e à escola de samba Imperatriz Leopoldinense. João participou de atividades de pré-campanha de Mariana Souza, candidata do PP e mulher de Wilson Marques de Albuquerque, conhecido como Zé Dirceu, liderança alagoana do Comando Vermelho.
Infiltração do Comando Vermelho nas instituições
Mariana Souza também sofre impugnação e é apontada pelo MPE como tendo vínculos profundos com o alto escalão do CV. Sua eleição implicaria em risco de infiltração institucional, segundo a acusação. O MPE cita um áudio de Nem Catenga, líder do CV em Alagoas, onde a organização afirma precisar de um representante e uma voz ativa na política.
Envolvimento com traficantes locais
Cristiano Santos, o Cristiano Hermógenes (Avante), candidato à Assembleia Legislativa e ex-vereador de Belford Roxo, é irmão de Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, apontado como um dos principais chefes do Comando Vermelho. A denúncia sustenta haver vínculo funcional e politicamente relevante entre Cristiano e a estrutura criminosa.
Val Ceasa (PRD), candidato à reeleição, é alvo de impugnação do MPE por supostos vínculos com o Terceiro Comando Puro. Ele também aparece em investigação sobre articulação para impedir demolição de imóveis em Parada de Lucas, incluindo propriedade de Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, apontado como chefe da facção.
Operação Unha e Carne
Márcio Canella (União), ex-prefeito de Belford Roxo e candidato a deputado estadual, foi preso pela Polícia Federal ao ser encontrado com um fuzil durante a Operação Unha e Carne, que investiga ligações entre agentes públicos e integrantes do crime organizado. Inicialmente pré-candidato ao Senado, ele modificou seus planos após a prisão.
