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Aposentados enfrentam redução de crédito consignado: entenda o dilema da renda complementar

by Guilherme Salles

A queda da margem consignável para aposentados

Desde maio de 2026, aposentados e pensionistas do INSS enfrentam uma realidade mais desafiadora. A margem consignável, que representa o percentual da renda que pode ser comprometido com empréstimos descontados em folha, caiu de 45% para 40%. O governo federal tem um plano ambicioso: reduzir esse percentual em dois pontos anuais até atingir 30% em 2031, conforme informações do Portal A Crítica.

Essa decisão não é aleatória. Ela responde a um crescimento preocupante da inadimplência entre idosos. Dados da Serasa Experian mostram um quadro alarmante: o número de inadimplentes com mais de 60 anos saltou de 14,1 milhões em janeiro de 2025 para 15,9 milhões em janeiro de 2026, representando uma alta de 12,7% em apenas um ano. Quando se analisa o período entre 2020 e abril de 2025, o crescimento chega a 43,16%.

A dependência de crédito para sobrevivência básica

Uma pesquisa realizada pela Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box, que ouviu 1.052 brasileiros aposentados e prestes a se aposentar, revelou dados perturbadores. Seis em cada dez aposentados (60%) já precisaram buscar crédito ou empréstimo para cobrir despesas essenciais, como alimentação e saúde, que representam os dois maiores gastos desse grupo populacional.

O levantamento apresenta um cenário ainda mais amplo da crise financeira enfrentada pelos idosos. Metade dos aposentados recorreu a crédito para pagar contas e despesas correntes, enquanto 64% consideram o valor da aposentadoria insuficiente para manter seu padrão de vida. Além disso, 53% continuam trabalhando para complementar a renda, 48% sentem instabilidade financeira e 45% relatam maior risco de endividamento após se aposentar.

O crédito deixou de ser um instrumento para lazer e tornou-se uma ferramenta de sobrevivência. Gastos com saúde e alimentação consomem mais de 55% da renda dos aposentados, deixando pouco espaço para outras necessidades.

A garantia constitucional versus a realidade

O artigo 7º, inciso IV, da Constituição Federal estabelece que o salário mínimo deve atender às necessidades vitais básicas do cidadão, incluindo moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social. Na teoria, essa proteção deveria garantir a dignidade dos trabalhadores urbanos e rurais.

Na prática, porém, essa diretriz não se reflete integralmente no cotidiano dos beneficiários do INSS, cujo piso de aposentadoria acompanha o valor do salário mínimo. A contradição é evidente: 60% dos aposentados continuam trabalhando e 50% dependem de crédito para suprir despesas essenciais, sinalizando que o Estado não consegue garantir o poder de compra do benefício previdenciário.

Fim do cartão consignado: uma medida polêmica

O Governo Federal anunciou que, a partir de 2027, será iniciado o processo de extinção do cartão consignado vinculado ao INSS em todo o território nacional. Essa medida integra o Programa Desenrola Brasil e objetiva reestruturar o sistema de concessão de crédito para a população idosa, contendo os índices de superendividamento na base previdenciária.

A equipe de análise da PrecPago, líder no setor de antecipação de precatórios no Brasil, apresenta uma perspectiva crítica sobre essas mudanças. Segundo a empresa, as novas regras tentam proteger o mínimo existencial e evitar que o aposentado entre em mais dívidas. Contudo, elas também evidenciam uma verdade incômoda: o Estado não consegue garantir o poder de compra do benefício previdenciário.

Os dilemas de uma política restritiva

Embora o crédito consignado seja historicamente uma das linhas de crédito mais baratas disponíveis, a redução da margem consignável e a extinção do cartão buscam conter o comprometimento excessivo da renda com crédito no longo prazo. Porém, essa política também reduz, no curto prazo, uma das poucas fontes de liquidez rápida à disposição de quem já usa esse crédito para necessidades do cotidiano.

O aumento da inadimplência entre idosos e a maior dependência de crédito para despesas básicas ajudam a explicar os motivos dessa abordagem restritiva. A tentativa é limitar o acesso ao crédito para evitar a insolvência total da população idosa. Mas a questão permanece: sem alternativas viáveis de renda complementar e com benefícios insuficientes, como os aposentados conseguirão sobreviver?

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