A genialidade por trás de comparações que viralizaram nas redes sociais
O antropólogo Gilberto Freyre pode ter popularizado o conceito de “futebol-arte” nos anos 1930, mas foi o americano LJ Rader quem realmente enxergou arte em praticamente todos os esportes. Na década de 2020, ele criou “Art, but make it sports” (ou “Arte, só que esportiva”), um projeto que compara pinturas e esculturas clássicas com momentos marcantes de competições reais, conquistando milhões de seguidores e reconhecimento internacional.
O sucesso da iniciativa é evidente. O perfil do Instagram (@artbutmakeitsports) e a conta no X (@artbutsports) acumulam uma audiência massiva, enquanto o projeto foi transformado em um livro publicado em abril em parceria com a agência Getty Images, disponível para compra internacional na Amazon. LJ foi ainda reconhecido pela revista Time neste mês como um dos 100 criadores de conteúdo mais influentes da internet em 2026.
De padrões visuais a uma fenômeno digital global
LJ Rader mora em Nova York e possui uma capacidade notável de reconhecer padrões, além de uma excelente memória fotográfica. Quando viu a imagem de Trump em campo no dia da final da Copa do Mundo, imediatamente estabeleceu uma conexão com “Os comediantes italianos”, obra de Antoine Watteau de 1720, colocando-as lado a lado de forma brilhante.
Sua trajetória profissional o preparou perfeitamente para este tipo de criatividade. Vencedor de um Emmy pela cobertura das Olimpíadas de Inverno de Sochi em 2014 pela NBC, LJ trabalha com esportes “desde sempre” e atualmente está vinculado a uma empresa de dados deste setor. Curiosamente, ele é mais fã de futebol feminino do que masculino, diferentemente da maioria dos americanos.
Como tudo começou: uma brincadeira que virou fenômeno
A criação do projeto nasceu de uma observação simples. Quando o Instagram estava ganhando popularidade, LJ achava meio bobo as pessoas postarem apenas fotos de si mesmas. “Pensei que seria engraçado compartilhar imagens de arte, mas com legendas esportivas”, conta ele ao explicar suas motivações iniciais. Ele executou essa ideia por vários anos em sua conta pessoal, até que amigos o estimularam a criar um espaço exclusivo para esse conceito.
As postagens começaram com jogos de basquete da NBA e posteriormente se expandiram para outras modalidades. O projeto ganhou ainda mais visibilidade durante a Copa do Mundo masculina, quando momentos como o encontro entre o britânico Jude Bellingham e o norueguês Erling Haaland foram espelhados com obras-primas como “Lamentação de Cristo”, do holandês Gerard David, pintada entre 1515 e 1523 e atualmente exposta na National Gallery de Londres.
Sem inteligência artificial: criatividade pura
Uma das questões mais frequentes que LJ recebe é sobre o uso de inteligência artificial em suas criações. “A primeira coisa que as pessoas pensam é que uso IA. Escuto isso todos os dias. Mas a conta no Instagram existe antes de todas essas ferramentas”, afirma com convicção.
Para LJ, utilizar IA tiraria completamente o propósito do que ele vê como uma brincadeira e passatempo genuíno. Seu trabalho é resultado de observação cuidadosa, conhecimento histórico profundo e criatividade humana pura. Inclusive, o livro só foi publicado por insistência de outras pessoas, já que LJ não via inicialmente como necessário expandir o projeto além das redes sociais.
O impacto educacional e futuro do projeto
O sucesso do livro tem se mostrado gratificante em formas inesperadas. “É legal mostrar para uma audiência que não está nas redes sociais. E também ouvi muitos relatos de professores que usam o livro para apresentar história da arte aos alunos, o que é extremamente gratificante”, revela LJ.
A próxima oportunidade para alimentar os feeds será o torneio de tênis US Open, que começa em 30 de agosto. Além disso, a Copa Feminina no Brasil em 2025 já está nos planos de LJ, reafirmando seu compromisso em expandir o alcance artístico-esportivo do projeto. A Era de Ouro holandesa do século XVII, com artistas como Jan Steen (1626-1679) e Rembrandt (1606-1669), é sua favorita, particularmente as cenas de pessoas bêbadas em tavernas que revelam a humanidade capturada pela arte clássica.
