Equilibrivm II: A Nova Jornada de Anitta pela Música Brasileira
O segundo álbum da cantora Anitta em 2026, intitulado “Equilibrivm II”, representa muito mais do que uma simples continuação de seu trabalho anterior. Lançado no streaming a partir das 21h de quinta-feira, este ambicioso compêndio de música popular brasileira estabelece um diálogo profundo com a tradição nacional, enquanto aponta direcionamentos inovadores para o futuro da música brasileira contemporânea. Com faixas curtas, diretas e repletas de espiritualidade, o álbum consolida a posição de Anitta como uma artista comprometida com suas raízes culturais.
Um Projeto Ambicioso de MPB e Colaborações Notáveis
O disco se destaca pela exclusividade do português em suas composições, com exceção de uma versão em espanhol de “Azul”, clássico de Djavan. As colaborações são de peso: Maria Bethânia e Alceu Valença integram o elenco de artistas que participam desta jornada musical. Essas parcerias não são meramente funcionais, mas essenciais para a construção narrativa do álbum, que busca honrar a tradição brasileira enquanto a reinventa para os dias atuais.
Análise Faixa a Faixa de Equilibrivm II
Abertura Contundente e Identidade do Disco
“Você já sabe”, em parceria com Los Brasileros, abre o álbum com funk, maculelê e uma mensagem fundamental. Anitta canta no refrão: “Você já sabe quem chegou / só pelo toque do tambor”, estabelecendo imediatamente a atmosfera do terreiro. A letra contém um recado essencial ao entendimento do disco: “quem não pega o embalo do som / não entendeu a malandragem”. Esta faixa define o tom para tudo que virá a seguir.
Funk e Referências Religiosas
“Sal grosso”, em colaboração com Kbrum, continua o baile funk com abundantes referências ao Candomblé e toques de dancehall jamaicano no rap do convidado. A mensagem é clara e urbana: “em Madureira City, tem que respeitar!”. Esta faixa mantém a energia inicial enquanto introduz elementos de musicalidade mais complexa.
Xaxado e House Music: Uma Fusão Inesperada
“Não me cutuca”, com Alceu Valença, surpreende com sua fusão de baixo sintetizado de house music e balanço de xaxado. Anitta executa o milagre de encaixar a letra na métrica nordestina com precisão: “É sempre bom lembrar / que não é bom mexer com a maluca / que eu tô quieta no meu canto / então não me cutuca”. A intervenção de Alceu, embora breve, é absolutamente poderosa.
Ternura Nordestina e Espiritualidade
“Eu não sou santa”, ao lado de Mestrinho, explora Nordeste, religiosidade e ternura através da voz e sanfona do convidado. “Feitiço”, com Mart’nália, apresenta eletrônicas com presença sutil mas decisiva, funcionando como um canto de terreiro com sample de J.B. de Carvalho, mítico cantor de pontos de macumba.
Sambas-Pop e Reggae
“Ponta do pé” é um dos exemplos mais lapidares de samba-pop, com sopros e influências benjorianas, demonstrando a capacidade de Anitta de “deitar e rolar” nesses formatos musicais. “Abre caminho”, com Alexandre Carlo, traz baião-reggae com sabor Natiruts, funcionando como um canto de liberdade em formato de canção pop.
Reggae, Bossa Nova e Afoxé
“Tudo isso” retoma o reggae em formato lovers rock, com participação de Alice Caymmi. “Sem pressa”, com MC Tha, apresenta um afoxé dos bons, voltado para conforto espiritual e a certeza de que “a vida com pressa não presta”. “Deus Mãe”, com King Saints, incorpora sample de “Plantadeira” (Minuska Lima), louvando as matriarcas com firmeza feminina.
O Apice Espiritual: Maria Bethânia
“Ogum me rodeia”, com Maria Bethânia e Letícia Fialho, representa o pico emocional do disco. Recita a cantora baiana: “Sua vitória é minha casa / nela, meu corpo não conhece ferida / conhece fé”. Este momento marca a chegada majestosa de Bethânia sob o manto da fé brasileira, com coros femininos embelezando o afoxé.
Contemplação, Bossa Nova e Encerramento
“Contemplação”, com Grupo Ofá, funciona como interlúdio de grande beleza, permitindo que o disco desacelere simplesmente para contemplar e louvar. “Pra você gostar de mim” faz referência a “Taí” de Carmen Miranda, levando Anitta novamente pelo universo da bossa nova. “Divindo sexual” explora o caráter carnal e cinematográfico, reivindicando que “o sensual também é divino”.
“Azul” apresenta Anitta interpretando Djavan em espanhol com louvor, enquanto “Respira” oferece um samba com sabor latino. Finalmente, “Oke”, com Brô MC’s e Katú Mirim, encerra o álbum com rap indígena, apontando para próximos movimentos no projeto de traduzir para os novos tempos as raízes do Brasil.
Conclusão: Um Disco que Honra e Reinventa
“Equilibrivm II” consolida Anitta como uma artista profundamente comprometida com a música brasileira, capaz de dialogar com ícones da MPB enquanto cria algo genuinamente novo e contemporâneo. O álbum é uma celebração das raízes nacionais reimaginadas para o futuro.
