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Vitor Fryari: A saúde mental nas corporações é debatida, mas trouxe transformações reais?

Enquanto a legislação avança, o cotidiano de trabalho ainda expõe milhares de pessoas à pressão crônica, sobrecarga e adoecimento emocional. O Brasil não está apenas cansado. Está adoecido

Divulgue pra geral:

O Brasil enfrenta um cenário preocupante, onde condições como ansiedade, burnout e depressão se tornaram algumas das principais razões para o afastamento dos trabalhadores. Apesar do progresso nas leis relacionadas ao tema, a realidade do ambiente profissional ainda submete muitos a pressões constantes, sobrecargas de trabalho e problemas emocionais. O país não está apenas fatigado; está realmente adoecido.

Em 2025, a Previdência Social registrou que mais de 546 mil trabalhadores foram afastados por transtornos mentais e comportamentais. Os dados indicam que ansiedade, depressão e burnout estão entre as causas mais frequentes. Esse número não impressiona apenas pela magnitude, mas também pelo que revela sobre as vidas atuais: o sofrimento psíquico deixou de ser uma experiência isolada e se tornou uma parte da rotina de milhões de brasileiros no mercado de trabalho.

A crescente conscientização sobre saúde mental tem ocupado um espaço significativo nas empresas. Nos últimos anos, questões como burnout, assédio moral e exaustão emocional passaram a ser discutidas em reuniões corporativas e campanhas internas, além de integrarem políticas de recursos humanos. Um marco importante nessa evolução foi a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que exige que as empresas considerem os riscos psicossociais na gestão dos riscos ocupacionais. Isso significa que fatores como pressão excessiva, sobrecarga e conflitos interpessoais são agora reconhecidos oficialmente como elementos que afetam a saúde dos trabalhadores.

No entanto, uma pergunta crucial surge: será que a saúde mental realmente se tornou parte da cultura empresarial ou é apenas uma retórica vazia?

Nos últimos tempos, o setor corporativo assimilou rapidamente a terminologia relacionada à saúde mental. Conceitos como janeiro branco, autocuidado e resiliência passaram a ser comuns em treinamentos e comunicações institucionais. Embora haja avanços notáveis com o tema ganhando visibilidade, persiste uma impressão de superficialidade em muitas dessas iniciativas.

Várias empresas têm introduzido aplicativos para meditação, palestras motivacionais e programas focados no bem-estar dos funcionários. Contudo, essas organizações frequentemente mantêm rotinas marcadas por pressões excessivas e jornadas extenuantes. Embora incentivem os trabalhadores a gerir melhor seu sofrimento emocional, raramente oferecem espaço para discutir as condições de trabalho que causam esse sofrimento.

Do ponto de vista psicológico, essa situação cria um ciclo perigoso: a individualização do adoecimento.

Quando ambientes prejudiciais continuam operando normalmente, o sofrimento é visto como uma “falha na adaptação do indivíduo”. A mensagem implícita é clara: o problema não reside na organização do trabalho, mas na incapacidade do trabalhador em lidar com ele.

A saúde mental corre o risco de se tornar uma mera jargão corporativa nesse contexto. O sofrimento mental não surge isoladamente; ele decorre das interações humanas, da insegurança constante no emprego, da pressão por desempenho e da falta de reconhecimento. Nenhum programa de bem-estar pode compensar ambientes sustentados pelo medo ou pela sobrecarga contínua.

A ascensão dos diagnósticos de ansiedade e burnout reforça essa realidade. Quando um grande número de pessoas apresenta sintomas semelhantes ao mesmo tempo, talvez seja hora de questionar não apenas “o que está acontecendo com os indivíduos?”, mas também “o que está ocorrendo na forma como vivemos e trabalhamos?”.

A revisão da NR-1 representa um marco significativo precisamente porque desloca essa discussão para um âmbito coletivo. Ao reconhecer os riscos psicossociais como fatores ocupacionais, a legislação valida algo que profissionais da saúde mental têm observado há anos: o trabalho pode causar adoecimento emocional nos indivíduos.

No entanto, converter legislações em uma cultura corporativa genuína é um desafio muito mais complicado. Isso requer uma revisão dos modelos de gestão existentes, das relações de poder dentro das empresas e das formas de comunicação que normalizam a exaustão como sinônimo de produtividade. É essencial entender que saúde mental não pode ser reduzida a campanhas pontuais enquanto o ambiente cotidiano continua sendo insustentável emocionalmente.

Possivelmente, o maior desafio enfrentado pelas empresas atualmente não consiste em aprender a discutir saúde mental; mas sim em descobrir maneiras efetivas para não causar adoecimento aos seus colaboradores.

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