Existem questões que ecoam mais intensamente do que suas respostas. Recentemente, durante uma conversa com um professor que estimo muito, expressei uma preocupação que venho alimentando há anos: será que a academia — em particular nas áreas de patrimônio, história da arte e humanidades — não está se distanciando do estudo direto dos objetos?
Essa percepção é vaga, mas persistente. Observa-se um aumento no número de dissertações e teses com elevado rigor teórico, muitas delas fundamentadas em debates contemporâneos importantes e necessários. No entanto, essas pesquisas frequentemente não adicionam conhecimento real sobre os acervos brasileiros. Conceitos são revisitados, narrativas tensionadas e autores reinterpretados — mas o objeto em si frequentemente é negligenciado ou até ausente.
A resposta que recebi foi clara e ao mesmo tempo perturbadora.
O primeiro aspecto a ser considerado é estrutural: o acesso. Muitas coleções brasileiras ainda estão sujeitas a restrições, que só podem ser amenizadas pela digitalização ou dependem fortemente de relações pessoais ou institucionais. Não se trata de criticar os responsáveis por essas coleções, mas sim de reconhecer uma realidade: sem acesso, não há como realizar pesquisa. E sem pesquisa, o objeto torna-se inacessível tanto fisicamente quanto intelectualmente.
Há também um problema ainda mais grave a ser destacado: a ausência de museus, órgãos de patrimônio e arquivos públicos e privados bem estruturados transforma a questão do acesso em uma questão de existência. Isso significa que não enfrentamos apenas dificuldades para consultar objetos; há o risco real de que eles nem sejam documentados ou registrados. Sem instituições sólidas, não há acervos organizados; sem esses acervos, a pesquisa se torna inviável.
O segundo aspecto é metodológico. Existe uma carência de conexão entre disciplinas que deveriam interagir de maneira mais fluida: arqueologia histórica, história da arte erudita, conservação, arqueometria e análises científicas. Embora o Brasil esteja começando a avançar nessa área — como no caso do Lab.Mov do IFRJ e do Laboratório de Instrumentação Nuclear da COPPE/UFRJ no Rio — utilizando técnicas como fluorescência de raios X e tomografias aplicadas ao patrimônio — ainda estamos longe de estabelecer uma cultura sistemática de investigação interdisciplinar. O objeto que poderia ser analisado sob múltiplas camadas — material, técnica, simbólica e histórica — acaba sendo reduzido a meras fragmentações discursivas.
O terceiro ponto talvez seja o mais sensível. Quando o acesso é limitado e as metodologias não se ampliam, o resultado tende a ser repetição. Ou, em uma versão mais contemporânea, a constante reinterpretação de pesquisas anteriores. Com frequência, o esforço intelectual migra da produção de novos conhecimentos para a revisão — e em alguns casos até para questionar — estudos estabelecidos anteriormente. O campo acaba girando em torno de si mesmo enquanto os acervos permanecem amplamente inexplorados.
É nesse cenário que a realidade concreta aparece como um contraponto significativo. No centro do Rio de Janeiro existem coleções cujo potencial investigativo está longe de ter sido plenamente explorado — algumas mal começaram a receber o rigor analítico necessário. A Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores possui um conjunto significativo de bens móveis que ainda carece de avaliações sistemáticas tanto sob aspectos estilísticos quanto materiais e técnicos. Contudo, há uma perspectiva promissora à vista: uma publicação em andamento sobre esse conjunto deverá ajudar a preencher lacunas relevantes relacionadas às suas características iconográficas, materiais e formais — indicando que quando os objetos são colocados novamente no centro das discussões, o campo acadêmico responde positivamente.
Um exemplo semelhante pode ser observado na Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, cuja riqueza em talhas e elementos integrados continua desafiando leituras mais profundas e interdisciplinares.
Ao expandir o olhar para além do núcleo centralizado, temos a Igreja de Nossa Senhora da Apresentação do Irajá — primeira freguesia extramuros da cidade colonial — que exemplifica como as histórias urbanas e da arte podem (e devem) dialogar com maior intensidade. Igualmente relevante é a Igreja de Nossa Senhora do Loreto, localizada em uma área fora dos circuitos tradicionais de pesquisa, revelando como as geografias do conhecimento ainda perpetuam centralidades desprovidas de relação com a relevância histórica dos acervos.
Nenhuma dessas instituições é desconhecida ou irrelevante; todas compartilham um destino similar: são mais frequentemente mencionadas do que realmente estudadas.
Isso não indica falta de pesquisadores interessados nem sugere que a academia brasileira perdeu sua capacidade crítica. Na verdade, revela um desalinhamento entre as condições materiais para pesquisa, as estruturas institucionais disponíveis e as agendas intelectuais predominantes no campo.
Recolocar os objetos no centro das investigações não deve ser visto como um movimento conservador — mas sim como um passo fundamental. Não existe teoria robusta que possa se sustentar indefinidamente sem base empírica sólida. Além disso, nenhuma revisão crítica pode prescindir do conhecimento acumulado sobre aquilo que se busca revisar. Por fim, políticas patrimoniais eficazes dependem essencialmente de investigações rigorosas e acessíveis.
Talvez esteja na hora de reverter essa equação: menos mediação sem substância; mais substância qualificada para enriquecer a mediação. Porque ao fim das contas permanece uma pergunta simples, incômoda e necessária: onde estão os objetos?



