Nos últimos meses, uma realidade tem se tornado cada vez mais evidente: o Brasil enfrenta não apenas a escassez de recursos destinados à cultura e ao patrimônio, mas, principalmente, a falta de um planejamento adequado.
Os sinais dessa problemática são amplamente reconhecidos e, por serem tão comuns, quase se tornaram parte do cotidiano. Itens culturais desaparecem e aparecem novamente décadas depois em leilões ou coleções particulares. Igrejas com grande valor histórico permanecem fechadas quando poderiam servir como centros de cultura e sustentabilidade. A maior parte dos acervos dos museus está guardada em reservas técnicas, enquanto comunidades inteiras carecem de acesso à sua própria memória. Instalações culturais federais deterioram-se fora de Brasília, que concentra recursos e infraestrutura. O mercado de arte frequentemente opera sem interação com os órgãos responsáveis pela proteção do patrimônio. Já o debate público oscila entre a apatia e polarizações infrutíferas.
Embora essas questões não sejam novas, nunca foi tão claro que elas compõem um mesmo desafio: a dificuldade em tratar o patrimônio cultural como um pilar fundamental para o desenvolvimento, ao invés de vê-lo como um mero apêndice administrativo.
A memória, conforme já mencionado anteriormente, nunca é imparcial. Desde tempos antigos, ela está ligada ao poder e à escolha: lembrar significa decidir o que deve ser mantido na história; esquecer é definir o que deve ser abandonado. Historicamente, no Brasil, essa escolha tem sido caracterizada por descontinuidades e omissões, muitas vezes acompanhadas por um desprezo institucional pelo passado. O resultado é um país que acumula perdas — tanto materiais quanto simbólicas e econômicas — sem transformar essas experiências em aprendizado coletivo.
No entanto, há indícios claros de mudança.
Recentemente, o setor patrimonial tem observado movimentos significativos: a modernização do Banco de Bens Culturais Procurados do IPHAN, a criação de plataformas para inventário (incluindo a do próprio instituto), o uso crescente de tecnologias científicas para investigar obras e uma maior interação entre instituições, além da inclusão de pautas mais diversas nos processos de reconhecimento e proteção. Essas são conquistas reais que reposicionam o Brasil em relação às práticas contemporâneas de preservação.
Entretanto, esses avanços ainda funcionam muitas vezes como ilhas de excelência em meio à desarticulação geral.
A centralização permanece. O patrimônio continua excessivamente concentrado — tanto física quanto simbolicamente — em algumas localidades e instituições. O acesso segue desigual e a colaboração entre diferentes níveis governamentais é frágil. As relações com o mercado são marcadas mais pela desconfiança do que por parcerias construtivas.
É aqui que o debate precisa evoluir.
Não se trata apenas de preservar melhor; é necessário preservar com propósito.
Para isso, primeiro é preciso descentralizar. O futuro do patrimônio brasileiro depende da transformação desta responsabilidade difusa em um compromisso compartilhado entre União, estados, municípios, universidades, organizações do terceiro setor e detentores dos bens culturais. Cidades como Rio de Janeiro, Salvador, Ouro Preto, Recife e Olinda não podem depender unicamente de estruturas federais frágeis para cuidar dos acervos que possuem valor local e nacional.
Isto também implica ampliar o acesso. As reservas técnicas não devem ser o destino final da maioria dos acervos. A criação de filiais museológicas, a circulação de exposições e a ocupação cultural em áreas periféricas são ações necessárias — patrimônios que não circulam perdem sua função.
Além disso, é vital reconstruir as conexões com o mercado. Antiquários e colecionadores não devem ser vistos apenas como potenciais suspeitos. Na verdade, eles podem atuar positivamente na identificação e rastreabilidade dos bens culturais se forem adequadamente integrados ao processo. Sem diálogo aberto, resulta-se na opacidade e na resistência que levam à perda de oportunidades.
E é imprescindível lidar com um equívoco comum no debate atual: a fragmentação excessiva do patrimônio em compartimentos identitários isolados. Por exemplo, o patrimônio ligado às tradições africanas não deve ser visto como algo separado daquele associado ao catolicismo colonial — ambos interagem entre si e juntos compõem a rica tapeçaria cultural brasileira.
Certa vez estive na Universidade de Brasília durante o 1º Fórum do Sistema Nacional de Patrimônio Cultural para lançar minha obra “A escultura religiosa do Rio de Janeiro colonial”, publicada pelo IPHAN. Fui abordado por um grupo ligado a terreiros religiosos; uma Mãe de Santo me questionou diretamente sobre objetos provenientes desses contextos no livro. Expliquei que meu estudo abrangeu apenas a imaginária sacra colonial daquele período específico. Inicialmente insatisfeita com minha resposta, sua expressão mudou ao ver imagens de São Benedito e São Sebastião; seu interesse logo se transformou em entusiasmo.
Este episódio simples mas profundo revela muito mais do que muitos tratados acadêmicos: o patrimônio brasileiro não existe em compartimentos separados; ele dialoga constantemente entre si e ressignifica-se continuamente através das diversas influências culturais presentes no país.
Dessa forma, é crucial comunicar aos gestores culturais atuais: não subestimem as expressões populares da fé. Não coloquem os segmentos culturais brasileiros numa disputa insensata por escassos recursos; esse caminho só fragmenta ainda mais um campo já marcado pela escassez.
No fundo das questões debatidas está uma questão política importante.
O patrimônio cultural brasileiro representa um ativo estratégico vital para a identidade nacional, projeção internacional e potencial econômico do país. Ele fundamenta setores como turismo, economia criativa e grandes festividades populares emblemáticas da brasilidade. Contudo, frequentemente ele é encarado apenas como um custo — ao invés de um investimento necessário.
Essa perspectiva precisa ser alterada urgentemente.
A questão vai além da mera preservação física de objetos ou tradições; trata-se da capacidade do Brasil em reconhecer-se historicamente e projetar-se no mundo com consistência. Um país que negligencia sua memória não apenas perde seu passado — também compromete suas chances de construir um futuro coeso.
Ao longo deste ano os temas discutidos indicam uma única direção: ou o Brasil interrompe a administração passiva do declínio do seu patrimônio cultural para estruturá-lo dentro das políticas governamentais efetivas ou continuará preso em ciclos repetidos de perda e redescoberta tardia.
A boa nova é que as soluções já foram identificadas.
Agora falta apenas vontade política para implementá-las.



