A mobilidade urbana na cidade do Rio de Janeiro permanece sob forte influência da violência. Nos primeiros quatro meses deste ano, foram contabilizadas 207 modificações nos itinerários dos ônibus, motivadas por operações policiais, conflitos armados e bloqueios nas vias. Esse total representa um aumento de 22% em relação ao mesmo intervalo de 2025, conforme dados fornecidos pelo Rio Ônibus.
Essas alterações impactam diariamente milhares de passageiros, concentrando-se especialmente nas áreas da Zona Norte e Zona Oeste, onde a criminalidade e as operações de segurança frequentemente interrompem a circulação dos ônibus. Para aqueles que dependem do transporte público, isso resulta em uma rotina repleta de atrasos, incertezas e insegurança.
As linhas mais afetadas por mudanças de trajeto este ano incluem a 737 (Santíssimo x Cascadura), com 11 ocorrências; a 926 (Senador Camará x Penha), que registrou 10; além das linhas 731 (Campo Grande x Marechal Hermes) e SV790 (Campo Grande x Cascadura), ambas com nove alterações.
Daniele de Oliveira, comerciante, compartilhou sua experiência pessoal com a violência no transporte público. Em entrevista ao portal g1, ela contou que foi assaltada dentro de um ônibus da linha 790, onde criminosos armados não apenas levaram seu celular como também agrediram o motorista antes de escapar.
Casos como o dela são comuns entre os usuários do transporte. A confeiteira Karina Dias mencionou que frequentemente observa interrupções nas rotas dos ônibus devido à violência. “As ruas ficam fechadas, os ônibus não conseguem parar; muitas vezes o motorista precisa deixar a chave na ignição e sair porque mandam todos descer. A população sempre é afetada de alguma forma”, declarou.
O mês de março foi o mais crítico do período analisado, com 103 desvios registrados, evidenciando um aumento significativo de quase 222% em comparação ao mesmo mês do ano anterior.
Entretanto, segundo o Rio Ônibus, essa elevação no número de alterações não necessariamente indica um agravamento da situação. A entidade esclarece que as empresas estão adotando um planejamento operacional mais proativo, ajustando rotas assim que recebem informações sobre operações policiais ou confrontos iminentes.
Paulo Valente, diretor de comunicação do sindicato das empresas de transporte, afirmou que essa abordagem visa prevenir que os veículos sejam parados por criminosos e usados como barricadas nas vias públicas. Para ele, o aumento nos desvios reflete uma resposta mais rápida das empresas frente aos riscos identificados.
A Polícia Militar destacou que mantém protocolos de comunicação com as empresas de transporte e com o Rio Ônibus para alinhar operações planejadas previamente. Além disso, a corporação enfatizou seu compromisso em restabelecer a normalidade sempre que episódios violentos interferem na circulação urbana.
Apesar dos desafios enfrentados pelo transporte coletivo, a PM informou que os roubos a ônibus diminuíram em 49% nos quatro primeiros meses do ano em todo o estado.
A sensação de insegurança também afeta diretamente os profissionais que trabalham nas ruas. Um motorista que atuou durante anos em linhas da Zona Norte revelou ter desenvolvido traumas psicológicos após vivenciar repetidos episódios violentos. “O trauma psicológico ficou. É imprevisível. Não tem hora para acontecer. Pode ocorrer a qualquer momento”, desabafou.



