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Canetas para emagrecimento sem supervisão médica podem afetar a saúde ocular

Em pacientes elegíveis para cirurgia de catarata, que estejam em tratamento para emagrecimento, o uso de remédios da classe dos análogos de GLP-1 requer cuidados redobrados

Divulgue pra geral:

A busca incessante pela forma física ideal leva muitas pessoas a adotarem práticas prejudiciais, pondo em risco sua saúde e bem-estar. As canetas emagrecedoras, originalmente criadas para tratar condições de saúde, tornaram-se uma tendência popular e a promessa de emagrecimento rápido, embora frequentemente de forma insegura.

Os medicamentos conhecidos como análogos de GLP-1, entre eles a semaglutida (comercializada como Ozempic), que são indicados para o controle do diabetes tipo 2 e proteção cardiovascular, passaram a ser utilizados não apenas para tratar doenças, mas também como uma solução para emagrecer sem esforço. Essa prática pode levar à recuperação rápida do peso perdido.

É fundamental que o acompanhamento médico seja parte do processo para alcançar resultados seguros, visto que todos os medicamentos podem apresentar efeitos colaterais, muitos dos quais não são amplamente divulgados. Em casos de uso inadequado das canetas emagrecedoras, as consequências podem afetar a saúde ocular, provocando mudanças significativas no metabolismo e impactando diretamente a pressão intraocular e a vascularização da retina.

Para pacientes que são candidatos à cirurgia de catarata e estão utilizando esses medicamentos para emagrecimento, é necessário redobrar os cuidados.

A questão ganhou destaque com a inauguração do Super Centro Carioca de Saúde em Campo Grande, localizado na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O espaço abriga o Centro Especializado em Obesidade e Metabolismo (CEOM), onde será oferecida semaglutida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a pacientes com obesidade grau 3 e comorbidades.

O CEOM é voltado para o tratamento de indivíduos considerados de alto risco, ou seja, aqueles com Índice de Massa Corporal (IMC) superior a 40 que apresentem diabetes ou hipertensão. Para realizar a cirurgia de catarata nesses casos específicos, é necessário um acompanhamento prévio de seis meses e exames mensais regulares.

Ricardo Filippo, oftalmologista carioca, alertou sobre os perigos das oscilações bruscas nos níveis glicêmicos e na pressão arterial que acompanham uma perda rápida de peso. Esses fatores podem alterar tanto a vascularização da retina quanto a pressão intraocular, interferindo no êxito das cirurgias:

“As rápidas alterações metabólicas causadas por esses fármacos podem afetar a dinâmica dos fluidos oculares e o fluxo sanguíneo na retina. É crucial que o paciente informe ao seu médico sobre o uso dessas substâncias, pois um controle sistêmico instável pode comprometer os resultados em cirurgias como a catarata, que normalmente é considerada simples”, ressaltou Filippo do Centro Oftalmológico (COI).

Em entrevista ao DIÁRIO DO RIO, Filippo explicou que a semaglutida atua como agonista do receptor GLP-1 imitando um hormônio intestinal cujo papel é aumentar a sensação de saciedade e diminuir o apetite. Ele acrescentou que esse medicamento estimula a liberação de insulina quando os níveis de glicose estão elevados e retarda o esvaziamento gástrico. Por esse motivo, pode ser eficaz tanto no tratamento da diabetes tipo 2 quanto na perda de peso quando utilizado corretamente.

No entanto, o especialista destacou os riscos associados ao uso da medicação sem supervisão médica adequada. Isso inclui náuseas, vômitos, desidratação e hipoglicemia quando combinado com insulina ou sulfonilureias. Além disso, há preocupações relacionadas aos procedimentos anestésicos devido ao atraso no esvaziamento gástrico. Para pacientes diabéticos com história prévia de retinopatia diabética: “Uma melhora excessivamente rápida da glicemia pode agravar temporariamente essa condição”, esclareceu.

Diante do aumento das falsificações e da venda ilegal do Ozempic sem receita médica, Filippo enfatiza a importância da orientação profissional especializada: “Evitar o uso autônomo é fundamental. Pacientes diabéticos devem realizar avaliações oftalmológicas antes ou logo após iniciar o tratamento, especialmente se já tiverem retinopatia diabética”, avisa ele. Além disso, recomenda-se monitorar gradualmente os níveis glicêmicos e seguir com acompanhamento regular por endocrinologistas e oftalmologistas. O atendimento imediato deve ser buscado se houver sintomas como visão turva ou dor ocular.

Para aqueles aptos à cirurgia de catarata enquanto utilizam semaglutida, é aconselhável informar previamente ao cirurgião oftalmológico e ao anestesista sobre o uso da medicação com detalhes sobre dosagem e data da última aplicação:

“Esses medicamentos podem atrasar o esvaziamento gástrico; portanto há um risco maior de regurgitação durante procedimentos anestésicos. A decisão sobre continuar ou ajustar o regime medicamentoso antes da cirurgia deve ser feita individualmente considerando sintomas gastrointestinais e controle do diabetes”, orientou o especialista.

Quando questionado se pacientes diabéticos tipo 2 em tratamento com Ozempic têm maior probabilidade de desenvolver doenças oculares, Filippo esclareceu: “O diabetes tipo 2 já aumenta os riscos para condições como retinopatia diabética e glaucoma. O Ozempic não deve ser visto isoladamente como causador dessas patologias; no entanto, em pacientes com retinopatia prévia que experimentam quedas rápidas nos níveis de glicose pode haver um risco maior temporário”, alertou ele.

A colaboração entre endocrinologistas e oftalmologistas é essencial para garantir que os efeitos colaterais do Ozempic sejam monitorados adequadamente antes que causem danos permanentes aos olhos. Ao priorizar uma orientação médica especializada, os pacientes têm mais chances de alcançar seus objetivos sem comprometer sua saúde ou segurança pessoal.

Sobre Dr. Ricardo Filippo

Formado pela UFRJ em medicina oftalmológica, Ricardo Filippo é um renomado especialista em cirurgias complexas com certificação pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO/AMB) além do Ministério da Educação (MEC). Ele possui ainda reconhecimento internacional através da certificação do International Council of Ophthalmology (ICO).

Com expertise em ceratocone, cirurgia refrativa a laser e catarata — além das subespecializações em Oncologia e Ultrassonografia Ocular pela UNIFESP/EPM — atualmente ele exerce funções como Responsável Técnico na COI Oftalmologia no Rio de Janeiro.

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