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Fernando Flores – A Persistência do Colonialismo Intelectual: A Influência Europeia na Mente das Universidades Brasileiras

Com isso, formamos profissionais que citam Foucault de cór, mas nunca ouviram falar de Ailton Krenak; que decoram Freud, mas desconhecem Suely Rolnik; que leem Platão no primeiro período e se formam sem ter contato com um único filósofo bantu

Divulgue pra geral:

A descolonização do Brasil, que se iniciou politicamente em 1822, ainda enfrenta desafios significativos nas salas de aula em 2026. O que se observa é a persistência de um colonialismo intelectual, onde prevalece um cânone que privilegia o homem branco, seja ele europeu ou norte-americano, como o único capaz de gerar conhecimento universal. Essa dinâmica leva à formação de profissionais que dominam Foucault, mas desconhecem Ailton Krenak; que memorizam Freud sem ter ouvido falar de Suely Rolnik; e que estudam Platão no início do curso, mas se formam sem ter tido contato com filósofos bantu. Já em 1968, Paulo Freire alertava sobre essa questão em sua obra “Pedagogia do Oprimido”.

O currículo acadêmico reflete um território ocupado por ideias específicas. Nos cursos de Filosofia das universidades federais brasileiras, a grade curricular abrange desde os Pré-Socráticos até Heidegger, saltando para a Escola de Frankfurt e o pós-estruturalismo francês. Quando autores africanos, indígenas ou latino-americanos são incluídos, geralmente figuram apenas como “tópicos especiais” ou disciplinas optativas. Em Psicologia, a rigidez é ainda mais acentuada: durante toda a formação, os alunos transitam entre Wundt e Lacan, Skinner e DSM-5, sem que uma única epistemologia não ocidental tenha espaço para ser debatida. Essa abordagem resulta na aplicação de ferramentas desenvolvidas para o sujeito europeu do século XIX ao sofrimento dos indivíduos periféricos.

Esse cenário é sustentado por um padrão estabelecido. Frantz Fanon, autor martinicano, denunciou em “Pele Negra, Máscaras Brancas” (1952) o fenômeno do “epistemicídio”, que se refere à eliminação de saberes alternativos. A nigeriana Oyèrónk Oywùmí, em sua obra “The Invention of Women” (1997), revela como a categoria “mulher” foi imposta pela sociologia ocidental a sociedades iorubás que não se organizavam segundo essa lógica. Dessa forma, importamos não apenas teorias, mas também os problemas que elas buscam resolver.

A afirmação de que “não há produção relevante fora do eixo Norte” é superficial e ignora uma vasta biblioteca repleta de conhecimentos valiosos:

  • África
  • Achille Mbembe (Camarões): “Crítica da Razão Negra” (2013) – Desmonta a ideia de que a modernidade europeia se desenvolveu independentemente da plantation e da colônia.
  • Souleymane Bachir Diagne (Senegal): “African Art as Philosophy” (2011) – Apresenta arte e oralidade como sistemas filosóficos completos.
  • Paulina Chiziane (Moçambique): “Niketche: Uma História de Poligamia” (2002) – Uma obra literária que serve também como um tratado sobre psicologia social da mulher africana.
  • América do Sul e Abya Yala
  • Silvia Rivera Cusicanqui (Bolívia): “Ch’ixinakax utxiwa” (2010) – Reflete sobre práticas e discursos descolonizadores através do conceito de “ch’ixi”.
  • Ailton Krenak (Brasil): “Ideias para Adiar o Fim do Mundo” (2019) – Uma reflexão filosófica sobre a terra frente à mercadoria-natureza.
  • Davíd Kopenawa Yanomami + Bruce Albert: “A Queda do Céu” (2010) – Trata da cosmologia e crítica ao “povo da mercadoria”.
  • Ásia
  • Gayatri Chakravorty Spivak (Índia): “Pode o Subalterno Falar?” (1985) – Um texto fundamental para compreender por que certos saberes não são reconhecidos como teoria.
  • Byung-Chul Han (Coreia do Sul/Alemanha): “Sociedade do Cansaço” (2010) – Crítica à psicologia neoliberal sob uma perspectiva externa ao eixo EUA-Europa.
  • Liang Shuming (China): “The Substance of Chinese Culture” (1949) – Propõe uma psicologia confuciana como alternativa ao individualismo metodológico.
  • Mulheres apagadas mesmo no Norte
  • bell hooks (EUA): “Ensinando a Transgredir” (1994) – Discute pedagoga como prática da liberdade e critica o cânone acadêmico.
  • Vinciane Despret (Bélgica): “O Que Diriam os Animais?” (2012) – Uma abordagem psicológica que rejeita a separação entre humano e natureza.

A importância dessa discussão se reflete na prática clínica: quando um psicólogo tem apenas Freud e DSM-5 como referência, expressões culturais como “susto” são traduzidas para TEPT e “encosto” se transforma em delírio. Isso retira do paciente o direito de nomear sua dor com as palavras da sua comunidade. Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nêgo Bispo, destaca: “Quando fomos para a universidade, aprendemos que não sabíamos nada. Ao retornar à comunidade, nos disseram que desaprendemos tudo porque a universidade nos ensina a pensar com as cabeças dos outros.” Assim, a psicologia brasileira acaba formando especialistas capazes apenas de traduzir as realidades locais por meio de dicionários europeus.

No campo das políticas públicas, gestores familiarizados apenas com Rawls elaboram estratégias redistributivas sem entender conceitos fundamentais como o “bem viver” andino ou o “ubuntu” bantu. Na área científica, ignoramos saberes tradicionais indígenas sobre manejo florestal rotulando-os como crenças enquanto investimos milhões em soluções inovadoras já existentes há séculos.

Descolonizar não significa substituir referências já consagradas; trata-se de pluralizar os conhecimentos disponíveis. Ninguém propõe descartar Kant; ao contrário, é essencial colocá-lo em diálogo com Zera Yacob, filósofo etíope do século XVII responsável pela obra “Hatata”, anterior ao “Discurso do Método”. É fundamental promover discussões entre Piaget e Léon Kengo wa Dondo sobre desenvolvimento infantil em sociedades baseadas em linhagens. A figura de Simone Beauvoir deve ser discutida lado a lado com Lélia Gonzalez, quem já abordava interseccionalidade entre raça, classe e gênero antes mesmo desse termo existir nos anos 80.

A universidade brasileira precisa transformar-se de uma mera extensão da Sorbonne para um verdadeiro ponto de encontro cultural. Enquanto as referências externas continuarem sendo priorizadas na formação acadêmica, será desafiador desenvolver interpretações alinhadas à realidade brasileira. Como salientou Lima Barreto em 1918: “O Brasil não tem povo; tem público”. Isso ocorre talvez porque muitos ainda não veem reflexos nas obras consideradas universais pelas universidades.

Fernando Flores é jornalista e estudante de psicologia.

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