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Ecos do passado: o silêncio do amolador e outros sons que se foram do Rio de Janeiro

Pesquisa da UFRJ relembra profissões que davam identidade sonora ao Rio de Janeiro — do apito do amolador às máquinas das chapelarias e oficinas artesanais espalhadas pelo Centro e pela Zona Sul

Divulgue pra geral:

A cidade do Rio de Janeiro já foi marcada por uma sonoridade que refletia seu cotidiano. Antes da era dos aplicativos de entrega, do tráfego constante e dos celulares tocando dentro do metrô, a metrópole tinha uma trilha sonora característica: o apito do amolador de facas ecoando nas ruas do Flamengo, o barulho das oficinas no Centro, o ritmo das máquinas de costura nas chapelarias e o vaivém dos pequenos ofícios artesanais que se espalhavam pelos diversos bairros cariocas.

No entanto, grande parte dessa paisagem sonora se perdeu ao longo do tempo. É essa memória que ganha vida de maneira fascinante no projeto “Profissões em Extinção: Três Retratos”, realizado na UFRJ pelas pesquisadoras Gisele de Araújo Lopes e Milla Monteiro.

As autoras esclarecem que a intenção não se limitava apenas a abordar a extinção de algumas profissões, mas também a registrar “toda a beleza do processo de produção manual”, onde “o barulho das máquinas” se tornava um contador de histórias.

Dentre os personagens retratados, destaca-se Seu Hilmo, um amolador de facas que circulava diariamente pelas ruas do Flamengo. A pesquisa ilustra o impacto visual e sonoro desse personagem enquanto ele caminhava pelas vias cariocas, à procura de clientes e transportando seus instrumentos ao longo das calçadas do bairro.

Por décadas, o som característico do amolador era parte integrante da rotina dos lares cariocas. Ao ouvir seu apito ao longe, os moradores logo corriam até o portão com facas, tesouras e outros utensílios que precisavam ser afiados. Era um tempo em que os serviços chegavam até as portas das casas e muitos trabalhadores dependiam exclusivamente da circulação pelas ruas para sua sobrevivência.

Outro ambiente sonoro retratado na pesquisa é o da Chapelaria Porto, situada em um antigo sobrado nas proximidades da Central do Brasil. O relato destaca o barulho incessante das máquinas de costura, os telefones tocando e a movimentação frenética dos clientes entrando e saindo da loja.

A própria localização da chapelaria contribui para criar a atmosfera do Rio antigo. As autoras descrevem o sobrado no Centro como um cenário que “componha muito bem o tema”. E realmente isso se confirma: poucas coisas parecem mais típicas do Rio do que um comércio tradicional estabelecido em um apertado sobrado na região central.

Além disso, há também o universo das pequenas oficinas caseiras, como a de um ourives localizada em Vigário Geral. O estudo enfatiza a importância de captar não apenas as entrevistas com os trabalhadores, mas também os sons das pequenas máquinas utilizadas na produção artesanal das joias.

É intrigante notar como a modernização da cidade não apenas extinguiu profissões; ela também silenciou sons, ritmos e hábitos urbanos inteiros. O Rio se despediu do assobio dos amoladores, dos fotógrafos lambe-lambe nas praças, dos vendedores de enciclopédias e dos técnicos em máquinas de escrever, entre muitos outros personagens que conferiam identidade às ruas cariocas.

A pesquisa desenvolvida na UFRJ atua quase como uma cápsula sonora do antigo Rio. Um lugar onde ainda havia espaço para o trabalho manual, onde as oficinas eram pequenas e os comerciantes conheciam seus clientes pelo nome, criando sons que agora permanecem apenas na memória dos mais velhos.

Talvez por esse motivo a extinção desses ofícios desperte tanta nostalgia. Quando cessa o som de uma profissão, junto com ele desaparece um fragmento da própria cidade.

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