por Richele Cabral – Diretora de Mobilidade da Semove e Vice-Presidente da Associação Internacional do Transporte Público (UITP) da América Latina
As decisões cotidianas sobre transporte refletem um dos maiores desafios na organização urbana contemporânea. O congestionamento nas vias, que frequentemente criticamos, é consequência direta da priorização das conveniências individuais. Ao comemorarmos pela primeira vez o Dia Internacional do Transporte Público nesta sexta-feira, 17, em uma iniciativa da UITP, temos a chance de avaliar as ações necessárias para reverter essa situação crítica, especialmente no contexto das regiões metropolitanas e do Rio de Janeiro.
Um estudo recente realizado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) destaca uma transformação significativa ao comparar os dados de 2017 e 2024 no Brasil. Há sete anos, os ônibus eram responsáveis pelo transporte de 45% da população; atualmente, esse número caiu para 31%. Em contrapartida, o uso de automóveis particulares cresceu de 22% para 30%, enquanto as motocicletas passaram de 5% para 11%. Os aplicativos de transporte, por sua vez, apresentaram um aumento ainda mais notável, saltando de 1% para 11%. No estado do Rio, especificamente, cerca de metade dos passageiros pagantes deixou de utilizar os ônibus municipais e intermunicipais na última década, conforme levantamento realizado pela Semove.
Assim, enfrentamos um dos principais desafios atuais: a diminuição da relevância do transporte público em relação ao transporte individual. Os aplicativos privados, tanto para carros quanto para motos, surgiram como alternativas ao táxi e ao veículo particular com a promessa de reduzir o número de veículos nas ruas. A conveniência do serviço porta a porta e a sensação de segurança ao evitar esperas em vias públicas, além das tarifas que muitas vezes se aproximam do valor das passagens convencionais, criaram uma falsa percepção de benefício. Na prática, esses serviços competem diretamente com os ônibus e outros modos coletivos, afetando a mobilidade urbana devido à falta de regulamentação e fiscalização adequadas.
É essencial compreender que um sistema eficiente de transporte público vai além do simples deslocamento das pessoas. Ele promove inclusão social por meio da implementação de políticas tarifárias que favorecem os cidadãos mais vulneráveis. Além disso, impulsiona a economia local ao facilitar o comércio entre regiões distantes e contribui para a diminuição dos índices de violência no trânsito e das emissões poluentes.
Entretanto, não podemos atribuir apenas às escolhas pessoais o aumento descontrolado da quantidade de veículos nas ruas. A falta de financiamento contínuo ao longo dos anos tornou o sistema de transporte coletivo menos atrativo aos usuários que buscam cada vez mais previsibilidade em seus deslocamentos. Embora o custo continue sendo um fator relevante, não é o único determinante. A demanda por viagens mais rápidas reflete o desejo crescente por mais tempo livre na vida pessoal. Portanto, investir na infraestrutura do transporte coletivo é fundamental para atender às expectativas da população e tornar as cidades mais acessíveis e organizadas.
A transição necessária representa um custo elevado. Negligenciar o transporte coletivo em favor do individual resulta na diminuição da pressão por melhorias no setor público. Para romper esse ciclo vicioso, a solução não reside na restrição à tecnologia, mas sim na restauração da eficiência do transporte público. Nesse sentido, a aprovação do Marco Legal do Transporte se torna uma medida estrutural urgente. Essa nova legislação visa reverter a desvalorização do transporte público e atrair novamente os usuários por meio de escolhas conscientes em vez da escassez de opções disponíveis.
Para que essa proposta se concretize, garantias financeiras devem ser estabelecidas. O modelo atual baseado exclusivamente nas tarifas pagas pelos usuários demonstra-se insustentável. O Marco Legal propõe segurança jurídica e fontes extratarifárias que assegurem a viabilidade saudável do sistema. Essa diversificação nos recursos financeiros permitirá manter tarifas justas e acessíveis, reforçando a competitividade dos ônibus frente aos meios individuais.
No Dia Internacional do Transporte Público, é essencial perceber o coletivo não apenas como uma alternativa para aqueles sem condições financeiras para optar pelo transporte individual, mas como uma escolha estratégica dos gestores públicos visando torná-lo a base funcional e sustentável das cidades inteligentes.
A aprovação do Marco Legal do Transporte representa um dos caminhos viáveis para superar essa crise atual e deve contar com o apoio ativo dos municípios e estados na valorização deste sistema público. Caso contrário, corremos o risco não só de não recuperar os passageiros perdidos como também enfrentar um colapso total na mobilidade urbana nas grandes metrópoles.



