A cidade do Rio de Janeiro voltou a ser foco de discussões em nível internacional, e não apenas por sua beleza natural. Uma reportagem da The Economist destaca a metrópole como um exemplo de uma contradição crescente: enquanto o turismo atinge recordes e a cidade busca apresentar sua imagem como um cartão-postal para o mundo, enfrenta sérios problemas relacionados à governança, violência armada e deterioração das instituições. A análise da revista britânica serve como um alerta para o restante do Brasil.
Os números refletem essa dualidade. Em 2025, o Rio recebeu 12,5 milhões de visitantes, resultando em um impacto econômico estimado em R$ 27,2 bilhões. Desses turistas, 2,1 milhões eram estrangeiros, representando um aumento de 44,8% em comparação ao ano anterior. Esse crescimento no setor turístico ressalta ainda mais as dificuldades identificadas pela publicação: existe uma cidade que aparenta prosperidade na superfície, mas que luta para manter a ordem institucional e a efetiva presença do Estado.
A reportagem argumenta que a crise no estado do Rio de Janeiro não deve ser interpretada como uma série de eventos isolados. Segundo a análise, o problema é profundo e estrutural. O estado enfrenta anos de turbulência política, repleto de investigações e escândalos. Em março deste ano, o Tribunal Superior Eleitoral declarou o ex-governador Cláudio Castro inelegível por um período de oito anos devido ao abuso de poder político e econômico durante as eleições de 2022. Essa situação reforça a imagem de um sistema político incapaz de se estabilizar.
Além disso, a avaliação da The Economist indica que o governo perdeu controle sobre partes significativas do território fluminense. O texto ressalta que a ocupação dessas áreas por facções criminosas e milícias já não é um fenômeno marginal; pelo contrário, afeta diretamente a dinâmica política e econômica da região. A problemática vai além da segurança pública; refere-se à habilidade do Estado em arrecadar impostos, regular atividades, fiscalizar serviços e assegurar direitos sem intervenção armada.
Para sintetizar esse cenário desolador, a revista utiliza uma metáfora contundente: “Bem-vindo ao outro Rio de Janeiro: uma selva urbana densa com os tentáculos do crime e da corrupção.” Essa frase encapsula a ideia de um Rio menos visível para os turistas e mais familiar aos residentes locais, onde o dia a dia é permeado por redes criminosas influentes e medo generalizado.
Um dos aspectos mais críticos abordados na matéria é a relação entre crime organizado e política. O assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes emerge como um símbolo dessa degradação institucional. Em fevereiro passado, o Supremo Tribunal Federal condenou os irmãos Domingos Brazão e Chiquinho Brazão a penas superiores a 76 anos pela execução. Esse julgamento revelou mais uma vez as profundas conexões entre autoridades públicas e organizações criminosas no estado.
Ainda segundo a reportagem, o crescimento dessas organizações tem consequências palpáveis. Um estudo realizado pela Confederação Nacional do Comércio estimou que os crimes violentos causam perdas anuais entre R$ 10,76 bilhões e R$ 11,48 bilhões à economia fluminense — cerca de 0,9% do PIB estadual por ano. Esse montante equivale aproximadamente a US$ 2 bilhões, evidenciando como a violência transcendeu uma mera questão social para se tornar um obstáculo significativo ao desenvolvimento do estado.
Para exemplificar essa ausência do Estado em certas regiões, a reportagem menciona áreas como o Complexo da Maré. Localizada na Zona Norte do Rio de Janeiro, essa comunidade abriga mais de 140 mil pessoas em apenas 4 km². Este dado ilustra não só a alta densidade populacional como também as dificuldades enfrentadas devido à precariedade dos serviços públicos e à pressão violenta por controle territorial — gerando uma realidade muitas vezes desconectada da imagem idealizada promovida pelo turismo.
O ponto mais impactante da análise pode residir menos na descrição da violência em si e mais nas suas implicações para a democracia. Ao sugerir que partes significativas do Rio estão sob influência direta de grupos criminosos, levanta-se questionamentos sobre se realmente existe competição política justa no local. O desafio não é meramente administrativo; trata-se também da legitimidade das instituições. Quando poderes paralelos se tornam predominantes sobre o Estado, as eleições e políticas públicas ficam sujeitas à pressão constante.
Por fim, a análise apresentada pela The Economist traz uma mensagem inquietante: embora o Rio continue sendo uma vitrine atrativa para turistas — movimentando bilhões com sua imagem sedutora — há uma realidade oculta marcada por milícias, facções criminosas e colapso da autoridade estatal por trás dessa fachada deslumbrante. A beleza persiste; porém, junto dela permanece um aviso preocupante.
Com informações d´O Globo



