É comum ouvir que a habilidade de andar de bicicleta é algo que nunca se esquece. O corpo retém essa memória. Mesmo após um longo período, um simples impulso pode restaurar o equilíbrio. No Porto do Rio, essa ideia é aplicada de forma distinta: a região não está apenas relembrando seu passado, mas sim reaprendendo a viver, e de maneira acelerada.
Historicamente, o Porto foi conhecido como um centro de passagem e operações logísticas. Esta área antiga da cidade, vista como a porta de entrada do Rio, era marcada por galpões e armazéns. No entanto, a partir dos anos 1990, essa função começou a declinar, à medida que as atividades se deslocaram para outras regiões, particularmente na Baixada Fluminense.
A transformação teve início com o projeto Porto Maravilha entre 2014 e 2016, quando houve uma significativa reestruturação urbana. Contudo, agora é que a dinâmica começa efetivamente a se estabelecer, com o aumento do número de moradores na área. Atualmente, mais de 20 novos empreendimentos estão em fase de construção. Dois deles já foram concluídos, trazendo vida para uma região que até recentemente carecia de residências. Este novo cenário representa um teste real para o bairro, cuja vitalidade depende da movimentação das pessoas. Apenas infraestrutura não é suficiente para garantir sua sustentabilidade.
Pedala Porto Rio
A Cury se destacou nas iniciativas dessa nova fase ao anunciar mais de 80% dos lançamentos previstos para o local. Em 2021, ela foi pioneira ao investir em empreendimentos residenciais nessa área. A resposta do mercado foi positiva e contribuiu para reposicionar o Porto na atenção pública. Para contextualizar, o bairro Santo Cristo registrou uma valorização impressionante de quase 640% no preço do metro quadrado nos últimos seis anos.
A partir desse momento, a abordagem da empresa deixou os canteiros de obras e passou a focar na ativação do ambiente ao redor. O objetivo agora é incentivar a circulação e estabelecer rotinas diárias—um elemento essencial para qualquer bairro viável. Sem atividade constante, não há cidade vibrante. Nesse sentido, as bicicletas ganham um papel fundamental na dinâmica urbana.
Lançado em abril deste ano, o Pedala Porto Rio tem como finalidade promover a exploração da região sobre duas rodas. Esta iniciativa convida tanto moradores quanto visitantes a percorrerem o local enquanto conectam mobilidade, arte e paisagens urbanas. Essa proposta dialoga com as tendências recentes observadas nos estudos sobre mobilidade urbana: a micromobilidade está se tornando uma opção popular para distâncias curtas nas áreas centrais. Com opções de integração ao VLT e metrô, andar de bicicleta deixa de ser apenas um passatempo e se torna uma parte integrante da rotina diária.
“O Pedala Porto surge como uma resposta às necessidades atuais da cidade. O Porto evoluiu de um projeto em potencial para um espaço dinâmico habitado por novos residentes — isso demanda uma infraestrutura mais acessível às pessoas. É essencial integrar infraestrutura, cultura e mobilidade ativa no coração urbano. A mobilidade ativa é crucial nessa transformação; ela não somente conecta locais distintos mas também reestabelece laços entre as pessoas e suas ruas e territórios”, explica André Bretas, fundador da Visionartz. A empresa brasileira celebra 15 anos utilizando a arte urbana como ferramenta para promover mudanças sociais e econômicas.
9,5 km de ciclovias
Para que esse fluxo urbano se amplie efetivamente, é necessário que a infraestrutura acompanhe essa evolução. Em colaboração com a Prefeitura através da CCPar, a Cury participa ativamente da revitalização das ciclovias no Porto Maravilha — são 9,5 quilômetros no total. O plano inclui a recuperação de 8,8 km já existentes e a criação de mais 660 metros de novas rotas cicláveis além da instalação de bicicletários estratégicos no Largo da Carioca e na Praça XV.
A expansão da malha cicloviária é fundamental para conectar o Porto ao restante do Centro e reforçar a mobilidade ativa como parte do cotidiano dos moradores. Entretanto, garantir apenas os percursos não é suficiente; eles precisam ser práticos no dia-a-dia e convidar as pessoas à permanência na área. Nesse sentido, o projeto visa implementar uma utilização contínua do espaço urbano inspirado nas Ramblas de Barcelona — adaptadas aqui como “mini calçadões” — criando áreas que promovem tanto circulação quanto convivência social.
Esse planejamento reflete as transformações em andamento na região. À medida que novos empreendimentos surgem e mais moradores se estabelecem ali, o território começa a diversificar suas funções além das atividades logísticas tradicionais; comércio e serviços vão se integrando ao fluxo constante das pessoas—um aspecto essencial para fomentar uma dinâmica saudável em um bairro.



