Na última quinta-feira (07), agentes da Polinter, vinculados à Polícia Civil, realizaram uma operação na Travessa do Mosqueira, localizada na Lapa, onde foram apreendidos fentanil e outras substâncias ilícitas. Durante a ação, três indivíduos suspeitos de envolvimento com o tráfico na área foram detidos em flagrante enquanto tentavam escapar pelos telhados de casarões abandonados que servem como ponto de venda de drogas. O fentanil, uma substância altamente poderosa, é cerca de cem vezes mais potente do que a morfina e é utilizado nos hospitais como um analgésico para dores intensas. Nos Estados Unidos, essa droga tem sido um dos principais responsáveis por uma epidemia de mortes por overdose.
Informações da polícia indicam que o fentanil foi encontrado fracionado em cinco tubos, totalizando 1 grama, e embalado como se fosse MDMA, outra substância sintética já comercializada por traficantes no Rio de Janeiro. Embora a quantidade possa parecer reduzida, a dose letal estimada para humanos é de apenas 2 miligramas, conforme dados da European Union Drugs Agency (Euda), o que significa que a quantidade apreendida era 500 vezes maior que o necessário para causar morte.
Introduzido pela primeira vez em 1959 e amplamente utilizado na década seguinte como anestésico intravenoso, o fentanil pode ser encontrado em várias formas, incluindo comprimidos e adesivos. Ele é eficaz no alívio da dor aguda durante cirurgias ou em casos de condições crônicas. Semelhante a outros opioides como a heroína e a morfina, esta droga atua nos receptores opioides do cérebro, áreas responsáveis pelo controle da dor e das emoções.
Esses receptores são normalmente ativados por substâncias químicas naturais do corpo que proporcionam sensações agradáveis relacionadas à sobrevivência, como alimentação e prazer sexual. A intensidade dos efeitos dos opioides depende tanto da quantidade ingerida quanto da velocidade com que atingem o cérebro; o fentanil é notoriamente potente mesmo em pequenas dosagens.
Ao atingir o cérebro, o fentanil se liga aos receptores opioides e provoca a liberação de dopamina, resultando em alívio da dor e sensações de prazer e tranquilidade. “Assemelha-se ao efeito da cocaína; na primeira utilização há uma sensação intensa que leva à busca pela repetição desse efeito”, afirmou Daniel Sitar, professor emérito da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Manitoba no Canadá.
Essa experiência torna o fentanil extremamente viciante. Contudo, sua ação no cérebro também pode ser fatal: ele pode levar à interrupção da respiração e consequentemente à morte por hipóxia (falta crítica de oxigênio no corpo).
A Interrupção Respiratória
O tronco cerebral é responsável pela função respiratória e também contém receptores para opioides. Quando expostos ao fentanil em altas quantidades, “é possível parar de respirar mesmo estando consciente”, esclarece Sitar.
Pesquisas recentes realizadas por cientistas do Hospital Geral de Massachusetts ligado à Universidade Harvard demonstraram que o uso do fentanil pode comprometer a respiração antes mesmo que outros sintomas se tornem evidentes ou ocorra a perda de consciência. Os resultados mostraram que a droga afeta a respiração cerca de quatro minutos antes do início dos sinais visíveis de alerta e em concentrações até 1.700 vezes menores se comparadas a outras drogas sedativas. “Esse aspecto explica porque o fentanil é tão letal: ele interrompe a respiração antes mesmo que as pessoas percebam qualquer mudança”, explicou Patrick L. Purdon, principal autor do estudo.
No contexto clínico onde altas doses são administradas durante cirurgias como anestésicos, essa supressão respiratória não representa um risco imediato porque os pacientes são entubados e recebem ventilação mecânica para simular a respiração normal”, afirma Sitar.
Os achados do estudo deixam claro que não existe uma quantidade segura de fentanil fora de ambientes médicos controlados por profissionais qualificados. Sitar ainda ressalta que quando essa substância é consumida recreativamente as pessoas perdem o controle sobre as doses utilizadas. Além disso, muitas vezes ela é adulterada com outras substâncias químicas tornando seus efeitos imprevisíveis devido às variações nas misturas.
Investigação no Brasil
Ações investigativas realizadas em estados como São Paulo e Espírito Santo revelam que traficantes estão incorporando opioides com o intuito de potencializar os efeitos de drogas já estabelecidas no mercado como a cocaína. Essa estratégia visa aumentar o potencial vicioso das substâncias enquanto reduz os custos através da utilização menor das drogas tradicionais.
Conforme explica Tarcísio Otoni, delegado do Departamento de Narcóticos da Polícia Civil do Espírito Santo, todas as apreensões realizadas até agora indicam que o fentanil tem entrado no mercado clandestino brasileiro principalmente através do desvio de ampolas hospitalares. “Nossas operações mostram que o fentanil tem sido utilizado pelo crime organizado tanto misturado com outras drogas para intensificar os efeitos quanto em sua forma pura”, afirmou Otoni.
Especialistas em saúde alertam sobre os riscos associados ao consumo involuntário deste opioide presente nas drogas adulteradas. Francisco Bastos, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), esclarece que os traficantes frequentemente testam novos produtos com base na resposta do mercado e na atuação policial. “A lógica do tráfico muitas vezes desafia nossa compreensão; os opioides podem reduzir os picos causados pela cocaína enquanto esta última atenua possíveis reações adversas dos opioides”, explicou Bastos ao Globo. “Historicamente falando, esse fenômeno parece ocorrer com frequência; novos produtos surgem quando há espaço no mercado ilícito.”
No cenário estadunidense, o fentanil está no cerne da chamada epidemia dos opioides responsável por dezenas de milhares de mortes anuais decorrentes de overdoses. Dados divulgados pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) apontam que aproximadamente 71 mil americanos perderam suas vidas em 2021 devido a overdoses relacionadas ao uso desse opioide sintético.
Crescimento na América Latina
A expansão ilegal do fentanil na América Latina motivou alterações nas estratégias governamentais voltadas à segurança pública no continente. Nos últimos anos, diversos países têm aumentado as penas e atualizado legislações para monitorar não apenas este opioide mas também novas ameaças sintéticas como nitazenos e xilazina. O receio entre especialistas está centrado na estratégia utilizada pelo crime organizado: misturar o fentanil com entorpecentes tradicionais como cocaína e LSD visando aumentar seu potencial vicioso. Enquanto isso acontece no México ao longo da fronteira com os EUA, países como Brasil, Chile e Argentina têm visto um fluxo significativo dessa droga proveniente principalmente do desvio ilegal das ampolas hospitalares.



