Após um hiato de seis anos do universo dos contos, Marcelo Moutinho faz seu retorno com a obra Gentinha (Record), que reúne 16 narrativas. O livro destaca-se pela habilidade de criar histórias e pelo olhar perspicaz sobre a vida urbana brasileira. Em um momento em que a autoficção predomina na literatura contemporânea, Moutinho opta por explorar enredos fictícios, personagens diversos e situações que, embora pareçam simples, transbordam desejo, nostalgia, humor e conflito.
Gentinha está estruturado em duas seções: “Dentro é um mundo” e “A verdade não rima”. A obra passeia por diversas realidades, desde as periferias até o cotidiano da classe média, movendo-se com fluidez entre diferentes classes sociais do país. As narrativas abordam a vida de indivíduos comuns, “gente do povo” (com todas as implicações dessa expressão), apresentando sua complexidade e originalidade.
Micheliny Verunschk, responsável pela apresentação do livro, aponta que Moutinho traz uma “visão aguçada” como cronista, atenta aos detalhes que compõem cada cena. Ela descreve sua abordagem como sensível e incisiva. Geovani Martins complementa ao afirmar que os contos são como “fotogramas”, fragmentos que nos levam a refletir sobre essa “gentinha” que representa todos nós.
Embora Moutinho seja amplamente reconhecido por sua conexão com a crônica — gênero pelo qual foi laureado com o Prêmio Jabuti em 2022 por A lua na caixa d’água (Malê) — ele reafirma sua vocação para a ficção neste novo trabalho. Ele observa: “Atualmente, vivemos um período dominado pela autoficção. Tenho notado que o espaço da ficção como um campo de imaginação ficou um pouco ofuscado. Gentinha apresenta outra possibilidade, não como oposição, mas como uma alternativa.” O autor já havia conquistado o Prêmio Clarice Lispector em 2017 com Ferrugem (Record).
Dentre os 16 contos presentes na obra, apenas “Queda para o alto”, o primeiro da coletânea, tem raízes em eventos reais ligados à morte trágica da mãe do autor e à sua história familiar complicada. No entanto, mesmo esse relato carrega elementos ficcionais. As outras narrativas são frutos de pura imaginação. Ao longo do livro, Moutinho apresenta uma rica variedade de diálogos cativantes, tramas criativas e finais inesperados, evocando ritmos e sabores típicos da cultura popular. Em suma, seus textos mesclam lirismo com tensão, violência e humor.
A narrativa “Sentimental eu sou”, ambientada na Feira de São Cristóvão, une dois grupos de personagens que parecem distantes entre si mas se conectam através de clássicos da música brega. De um lado, amigos antigos desfrutam de cerveja enquanto cantam em um karaokê; do outro lado, um grupo de playboys decide aproveitar a noite nesse local muitas vezes chamado jocosamente de “feira dos paraíbas”. Já “Mictório” constrói uma atmosfera pesada ao girar em torno de um encontro comum em um banheiro público decorado com azulejos azul-piscina, revelando um passado sombrio.
Em “Paladar infantil”, o humor surge ao imaginar a frustração de um bebê gourmet diante da falta de sabor da fórmula na mamadeira. O tom cômico também está presente em “Conto de Natal”, onde um ladrão disfarçado de Papai Noel tem boas intenções: presentear seu filho.
A nova obra aprofunda uma temática constante na carreira do autor: o foco nas vidas que existem fora dos círculos intelectuais tradicionais. Moutinho explica: “Não se trata apenas de uma questão de classe social; muitas vezes é isso também. São narrativas centradas principalmente naqueles que estão fora da bolha cultural letrada — essas vidas rotuladas como ‘comuns’ são as quais busco destacar.” O título Gentinha ecoa propositalmente uma citação do renomado jornalista e escritor João Antônio, conhecido por suas obras retratando proletários e marginalizados nas periferias urbanas.
A música permeia várias histórias não só como tema central mas também como elemento composicional. Trechos de canções — incluindo artistas como Roberto Carlos e Jorge Ben Jor — servem como referências afetivas e simbólicas reforçando a conexão entre literatura e cultura popular.
Com seu olhar acurado sobre as nuances do cotidiano urbano brasileiro contemporâneo, Gentinha solidifica Marcelo Moutinho como um notável observador das experiências humanas e um mestre no ofício da ficção capaz de transformar eventos comuns em literatura rica e profundamente humana.
SOBRE O AUTOR
Marcelo Moutinho nasceu no Rio de Janeiro em 1972. Recebeu o Prêmio Jabuti 2022 na categoria Crônica por A lua na caixa d’água (Malê) e o Prêmio Clarice Lispector 2017 pela Fundação Biblioteca Nacional com os contos reunidos em Ferrugem (Record). É também autor das obras O último dia da infância (Malê, 2025), A palavra ausente (Malê, 2022), Rua de dentro (Record, 2019), Na dobra do dia (Rocco, 2015) e da biografia Estrela de Madureira: a trajetória da vedete Zaquia Jorge (Record), além de livros voltados ao público infantil.
Serviço:
- Título: Gentinha
- Autor: Marcelo Moutinho
- Editora: Record
- Gênero: Contos
- Número de páginas: 192
- Preço: R$ 64,90
- ISBN: 978-85-01-92532-9
- E-book: R$ 39,90
- ISBN E-book: 978-85-01-92627-2
Eventos de lançamento:
- Rio de Janeiro: dia 14 de março, sábado às 14h — Alfa Bar e Cultura (Rua do Mercado, 34 – Centro). Primeira sessão de autógrafos acompanhada pelo Samba do Peixe.
- São Paulo: dia 19 de março, quinta-feira às 19h — Mercadinho Simples (Rua Rocha, 416a – Bela Vista). Bate-papo com Odorico Leal mediado por Iara Biderman seguido por sessão de autógrafos.
- Rio de Janeiro: dia 09 de abril, quinta-feira às 19h — Janela Livraria do Jardim Botânico (Rua Maria Angélica, 171b). Leitura com a atriz Fabíula Nascimento e o ator Bruce Gomlevsky; bate-papo mediado por Mateus Baldi seguido por sessão de autógrafos.



