Recentemente, tenho observado mais uma reestruturação das subprefeituras na Zona Norte do Rio, e a sensação é de já ter visto isso antes. Desde a década de 1990, os subúrbios cariocas passaram por diversas mudanças de agrupamento, desmembramento e reconfiguração administrativa, sempre com o pretexto de “aproximar a gestão” dos cidadãos. No entanto, na prática, os residentes dessas áreas continuam a enfrentar as mesmas dificuldades. Essa abordagem foi adotada por vários prefeitos ao longo dos anos, inclusive aqueles que se posicionaram como opostos às administrações anteriores.
Bairros como Ramos e Penha ainda figuram entre os mais necessitados em termos de áreas verdes e opções de lazer. O Plano de Desenvolvimento Sustentável da cidade reconhece essa disparidade na distribuição desses espaços entre as diferentes regiões do Rio, uma questão que já era abordada no Plano Diretor de 1991. Enquanto certas áreas da Zona Sul, Oeste e Sudoeste são privilegiadas com parques, praças bem arborizadas e infraestrutura urbana adequada, várias localidades da Zona Norte continuam sofrendo com ilhas de calor, excesso de concreto e escassez de opções para atividades ao ar livre.
A desigualdade também se reflete nos dados sobre mobilidade urbana. Conforme informações da prefeitura, apenas cerca de 13% da malha cicloviária da cidade abrange as grandes áreas suburbanas da Zona Norte, mesmo diante da alta concentração populacional e da dependência crítica de um transporte público deficiente na região.
O cenário na área da saúde é ainda mais alarmante. A CAP 3.2, que inclui bairros como Leopoldina e seus arredores, lidera os registros de internações por doenças respiratórias relacionadas a fatores externos em 2025. Isso é resultado de um conjunto de elementos como poluição, tráfego intenso, baixa cobertura arbórea e condições urbanas precárias. Não surpreende que os índices de qualidade do ar medidos pelo INEA e pelo Alerta Rio frequentemente revelam o impacto ambiental causado por vias congestionadas como a Avenida Brasil, Linha Amarela e Linha Vermelha.
É comum que defensores dessas reformas administrativas mencionem melhorias operacionais como coleta de lixo, poda de árvores ou manutenção urbana. Contudo, é fundamental ressaltar que isso não constitui desenvolvimento; trata-se apenas do básico esperado de qualquer administração municipal. O verdadeiro desafio reside em abordar as desigualdades históricas relacionadas à urbanização, saúde ambiental, mobilidade e acesso a espaços públicos adequados.
Portanto, surge a indagação: qual é o benefício em multiplicar subprefeituras e modificar organogramas se os problemas estruturais permanecem inalterados? A gestão territorial não deveria se limitar à divisão de mapas administrativos; deveria buscar proporcionar melhor qualidade urbana, mais áreas verdes, mobilidade eficiente e saúde para quem reside nos subúrbios cariocas.



