Um erro mascarado permanece sendo um erro. Essa reflexão surgiu ao me deparar com uma matéria de O Globo que detalhava o projeto de um grande edifício que pretende instalar uma série de pequenos quitinetes na Praça Mário Lago, localizada no Centro do Rio de Janeiro. O espaço, que conta com mais de 40 árvores, deverá abrigar 20 andares (em vez dos 24 inicialmente planejados), totalizando 624 apartamentos sem vagas para automóveis (e não os 720 cogitados anteriormente), além de quatro estabelecimentos comerciais. No entanto, é evidente que essa alteração estética não diminui a gravidade do projeto.
A revitalização do Centro deve priorizar a ocupação das inúmeras unidades que estão abandonadas há muitos anos. Tanto o Estatuto das Cidades quanto a própria Constituição Federal afirmam que a função social da propriedade é um princípio essencial a ser respeitado. É possível e necessário densificar a região central da cidade, mas isso deve começar pela valorização dos espaços já existentes e subutilizados. Novas construções em uma área já saturada de concreto apenas intensificam os problemas de ilhas de calor e a falta de ventilação.
Importante ressaltar que a Patrimar recebeu apoio significativo da Assembleia Legislativa e da Prefeitura do Rio. No final de 2022, o deputado Rodrigo Amorim (PL) promoveu a liberação da praça, enquanto Eduardo Paes (PSD) nunca se opôs à ideia e chegou a defendê-la nas redes sociais. Contudo, esses discursos são tão frágeis quanto uma estaca cravada em solo pantanoso. Os defensores do espigão alegam que ele contribuirá para diminuir o déficit habitacional, proporcionando moradia para famílias de baixa renda. No entanto, sabemos que estúdios com até 35 metros quadrados provavelmente serão destinados à especulação imobiliária e aluguéis temporários. Essa justificativa não se sustenta.
A Praça Mário Lago, embelezada pela estátua de Marielle Franco, deve continuar sendo um espaço de descanso para os trabalhadores durante o horário do almoço. Ao invés de um imponente edifício, ela poderia ser aprimorada pela prefeitura com atividades esportivas, danças e apresentações teatrais. A situação é preocupante.
Se a cidade persiste em trocar áreas sombreadas por concreto e convivência social por lucros imediatos, não está apenas cometendo um erro urbanístico — está renunciando ao próprio direito à vida urbana. Proteger a praça significa, em última análise, preservar o que ainda resta da essência da cidade.



