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Da Artillery to Candelária: a guild of sailors revealing how Old Rio was governed by trades

Confrarias de profissão — de artesãos e mercadores a almirantes — não apenas rezavam, mas regulavam ofícios, socorriam famílias e ajudaram a organizar o Centro do Rio por séculos

Divulgue pra geral:

Antes das grandes fortunas, dos palácios e dos títulos nobiliárquicos, o Rio de Janeiro foi uma cidade de ofícios. Sapateiros, mercadores, ourives, militares e marinheiros organizavam-se não apenas em torno de suas atividades econômicas, mas também sob a proteção de santos padroeiros. E dessas associações nasceram instituições que ajudaram a estruturar a própria vida urbana.

A Irmandade de São Crispim e São Crispiniano, formada por sapateiros, tornou-se símbolo desse modelo. A confraria não apenas promovia culto aos santos padroeiros do ofício, como também exercia influência sobre a própria atividade profissional — fiscalizando padrões de qualidade e fortalecendo laços corporativos em uma cidade onde a reputação do trabalho era essencial.

O mesmo ocorreu com comerciantes organizados na Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, que reunia homens de negócios sob proteção mariana, articulando fé, assistência mútua e identidade profissional no coração do Centro histórico.

Como demonstra a historiadora Beatriz Catão Cruz Santos, as irmandades leigas foram pilares da organização social carioca desde o período colonial. Funcionavam como redes de solidariedade, estruturas de regulação interna e espaços de afirmação pública da fé. Antes de o Estado assumir funções previdenciárias ou normativas, essas corporações religiosas já organizavam parte significativa da vida urbana.

A pesquisadora Geysa Pereira de Magalhães mostra ainda como essas associações atravessaram transformações políticas, reformas urbanas e crises institucionais, mantendo-se como estruturas vivas no Centro do Rio.

É dentro dessa tradição de confrarias de ofício que surge, já na República, a Irmandade de Nossa Senhora dos Navegantes da Marinha Nacional.

Acolhida em 1889 na Igreja da Candelária, a associação reunia oficiais da Marinha do Brasil — almirantes, capitães e engenheiros navais — organizados sob disciplina rigorosa e estatutos detalhados, como revela a pesquisa documental de Gabriel Levi Gomes de Oliveira.

Se os sapateiros tinham sua confraria, se os mercadores tinham a sua, os oficiais da Marinha também estruturaram a própria corporação religiosa. Eleições anuais, exigência de fé católica comprovada, assistência a viúvas e filhas, custeio de funerais e patrimônio próprio compunham um sistema que unia altar e farda.

Em fevereiro de 1900, uma procissão partiu do Arsenal da Marinha levando a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes até o altar lateral instalado até hoje na igreja da Irmandade da Candelária — gesto simbólico que unia o mar ao templo.

Nas solenidades, os irmãos vestiam opa azul com cordões dourados e traziam bordada a inscrição “Ave Maris Stella”. O auge ocorreu nas décadas de 1920 e 1930, quando a instituição reunia centenas de membros e patrimônio significativo. Mudanças legislativas em 1938 comprometeram o equilíbrio financeiro, levando à dissolução formal em 1941.

Ainda assim, a devoção permaneceu e foi retomada no século XXI por uma Congregação Mariana de Oficiais da Marinha, que se reuniu recentemente com toda pompa para honrar a sua padroeira, aos pés do altar da antiga Irmandade de Marinheiros.

Do sapato ao comércio, do comércio ao mar, o Rio foi moldado por corporações que uniam fé e trabalho. As irmandades não eram apenas espaços de oração — eram engrenagens da cidade.

E talvez seja essa a grande chave para compreender o Centro histórico: antes de ser cenário de prédios imponentes, ele foi palco de homens de ofício, estatutos assinados à luz de velas e procissões que davam sentido público à vida profissional.

Em um momento em que o Centro do Rio passa por novos debates sobre revitalização, ocupação e identidade urbana, recordar o papel dessas irmandades é mais do que exercício de memória. Elas demonstram que esta região nunca foi apenas um conjunto de prédios históricos: foi um organismo vivo, estruturado por redes de solidariedade, disciplina institucional e pertencimento comunitário. Entender essa tradição ajuda a perceber que a força do Centro sempre esteve menos nas fachadas e mais nas instituições que lhe deram alma.

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