No dia 11 de dezembro de 2024, o presidente da Argentina, Javier Milei, por meio de um decreto, eliminou a proteção legal que os povos indígenas dispunham para impedir despejos de seus territórios. A decisão governamental foi a raiz para que 45 guaranis começassem a se mobilizar para sair do país vizinho em busca de novas terras. Destino escolhido: Brasil.
“Antes de Milei já era difícil. Sempre foi luta. Eu já tinha saído de lá uma vez para São Paulo. Agora ficou pior”, frisa o pajé Eugênio, uma das lideranças do grupo argentino.
Foram mais de 250km de viagem da província de Misiones, onde eles viviam, até o Rio de Janeiro. O trajeto foi feito em um ônibus cedido aos guaranis argentinos. A chegada no Brasil, rodeada de incertezas, foi ganhando direção.
“Sabíamos dos parentes aqui. Buscamos ajuda e chegamos na Mata Verde Bonita”, conta o pajé, explicando como o grupo se alocou em uma das duas aldeias indígenas da cidade do Maricá.
Sobre a viagem, pajé Eugênio lembra dos atravessamentos do caminho: “Muitas crianças, anciãos. Foi estrada difícil”.
Pajé Eugênio
Dos 45 guaranis vindos inicialmente da Argentina para a Aldeia Mata Verde Bonita, em Maricá, 28 eram crianças ou adolescentes. O restante do grupo era composto por maioria de mulheres e idosos. Poucos eram os homens jovens.
O primeiro mutirão organizado pela Cacica Jurema, que lidera a Aldeia Mata Verde Bonita, foi para receber os parentes com alimentos e celebrações no encerramento de 2024.
“A gente conseguiu bastante ajuda nessa época. De muita gente. Mas ainda estão precisando de mais”, afirma.
Outras campanhas foram realizadas, inclusive envolvendo instituições de fora de Maricá. O Movimento Baía Viva é uma delas. “Está tramitando na Defensoria Pública da União uma representação sobre as condições precárias em que estas pessoas estão vivendo desde dezembro de 2024. Estão sem banheiros sanitários, pouca água para beber e plantar, moradias chovendo dentro. São muitas crianças, inclusive um bebê recém-nascido, além da mãe do pajé Eugênio, a Paulina (“Mamã”), que tem 116 anos de idade”, detalha Sérgio Ricardo Potiguara, co-fundador do Baía Viva.
Quem quiser ajudar os indígenas basta fazer contato por telefone com a cacica Jurema (21 967154271). Ou através do Movimento Baía Viva (21 99907-5946) e baiaviva2018@gmail.com.
Doação de colchões
Passado esse período de um ano e três meses, crianças nasceram, outros parentes chegaram e hoje são 87 guaranis argentinos na Aldeia Mata Verde Bonita.
Embora a Mata Verde Bonita receba doações e alguma estrutura da Prefeitura de Maricá não é o suficiente para tanta gente que chegou nos últimos meses. As necessidades dos guaranis argentinos são muitas.
“Falta telha para as casas, roupas, alimentos. Documento também não estamos conseguindo”, reforça o pajé.
Os indígenas argentinos chegaram ao Brasil como refugiados políticos. Reconhecidos pelo Ministério da Justiça e Polícia Federal. Contudo, até o momento apenas 13 deles receberam a documentação da PF.
Diante de mais uma situação de precariedade para seu povo, pajé Eugênio não ignora a ideia de seguir a sina guarani: resistir e migrar se for preciso: “Temos parentes em Paraty, Angra, Ubatuba. Lá podemos ter mais água, alimento”.



