O Flamengo conquistou mais um título carioca, mas a sensação no clube está longe de ser só de alívio. A vitória nos pênaltis sobre o Fluminense, no Maracanã, colocou mais uma taça na sala de troféus da Gávea, só que não conseguiu encerrar o mal-estar que tomou conta do ambiente rubro-negro nos últimos dias.
Logo na entrevista coletiva, Leonardo Jardim deixou escapar o clima que cerca o clube. Ao ouvir a introdução de uma pergunta, reagiu de forma curta: “Quando ganha, está tudo bem”. Leonardo Jardim. A frase foi rápida, mas carregada de sentido. Mostrou que, internamente, o entendimento é claro: vencer ajuda a baixar a temperatura, mas não resolve tudo.
O principal sinal disso veio da fala de Léo Ortiz. O zagueiro respondeu de forma direta ao ser perguntado sobre uma declaração do diretor de futebol José Boto, que havia dito que o elenco não soube lidar com a liberdade dada por Filipe Luís no dia a dia.
A resposta expôs incômodo. “Se existia algum problema, por que não foi falado antes? Por que esperou o Filipe Luís para falar para os jogadores? Eu falo tranquilo: o Filipe sempre deu liberdade e foi dessa maneira que ganhamos tudo ano passado. Ou você acredita nessa maneira ou você não acredita. Não pode só acreditar quando ganha. O Filipe sempre deu liberdade, mas nunca deixou de cobrar, do mais novo ao mais velho. Não é à toa tudo o que ele conquistou”, disse Léo Ortiz.
O tom não foi casual. A declaração mostrou que ainda existe distância entre parte do elenco e José Boto. Mais do que isso: deixou claro que a forma como Filipe Luís saiu segue pesando no vestiário. O próprio defensor admitiu tristeza pelo tratamento dado ao ex-treinador, ídolo do clube.
Do outro lado, Boto adotou um discurso mais frio. Ao falar sobre sua convivência com o grupo, tratou a relação de maneira estritamente profissional. “É uma relação de diretor. Não sou amigo dos jogadores, não vou tomar vinho com eles, não vou para a casa deles. É uma relação de respeito e é assim que tem que ser em todos os clubes”, disse José Boto.
A fala ajuda a explicar parte do ruído. Ninguém cobra amizade entre dirigente e elenco, mas o momento deixa evidente que a tal sinergia ainda não apareceu. O título não apagou a impressão de que há desgaste, desconfiança e muita coisa mal resolvida.
O presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, tentou blindar o clube e esvaziar o noticiário sobre a crise. Durante a disputa por pênaltis, apareceu em campo ao lado de Boto e Leonardo Jardim. Foi um gesto político. Uma imagem pensada para mostrar unidade num momento em que as dúvidas se acumulavam.
Na entrevista, porém, o presidente evitou entrar no tema Filipe Luís. Quando pressionado, preferiu rebater o noticiário e colocar as especulações da semana no campo do exagero. “Estou aqui para falar que somos heptatri. Se falou tanta bobagem, tanta tolice esta semana. (…) Eu acho interessante que uma porção de gente que não conhece nada, não está dentro do clube, não ouviu de mim, fica opinando, e 45 milhões de pessoas ficam enlouquecidas com isso. Quando a gente toma a decisão, a gente faz o que tem que fazer e pronto. Hoje, somos heptatri. É isso que importa. Nada mais é relevante do que o Flamengo ser campeão”, disse Bap.
O problema para o Flamengo é que o campo ainda não entregou uma resposta forte. O time venceu, foi campeão, mas não apresentou um futebol que encerrasse o debate sobre a troca de comando. No primeiro jogo, Leonardo Jardim mexeu pouco na estrutura. Usou uma formação muito próxima da adotada por Filipe Luís e fez ajustes mais discretos, com atenção maior para não oferecer contra-ataques ao Fluminense.
Funcionou o suficiente para segurar o empate sem gols e levar a decisão para os pênaltis. Não foi uma atuação de afirmação. Foi uma atuação segura, pragmática e suficiente.
O próprio novo treinador tratou de frear qualquer euforia. “Quem trabalha no Flamengo tem que jogar para ganhar. Com certeza quem perde desvaloriza. Quem ganha, valoriza. Ganhar Carioca, ser tri, com a possibilidade de ganhar o quarto no próximo ano é sempre fundamental. Não vamos nos iludir. Temos um percurso ainda pela frente, queremos continuar a trabalhar ainda mais e melhor e organizar uma equipe competente, como foi a do ano passado”, afirmou Leonardo Jardim.
A leitura dentro do clube parece ser essa. O título tem peso, claro, mas não basta para encerrar a discussão. Até porque o Flamengo já havia deixado escapar duas taças em 2026 e chega ao restante da temporada cercado por cobrança, ruído político e desconfiança sobre a condução do futebol.
No fim, o Carioca serviu mais para aliviar do que para pacificar. O troféu evita um cenário ainda pior, mas as falas no pós-jogo mostram que a crise não foi superada. Ela só entrou em pausa. O próximo teste já tem data: quarta-feira, no Maracanã, contra o Cruzeiro, agora pelo Brasileirão.
Com informações do UOL Esportes.



