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Acidentes de moto elevam pressão nos hospitais e provocam adiamentos de cirurgias no Rio

Dados do DataSUS apontam mais de 67 mil internações no estado entre 2015 e 2025.

Divulgue pra geral:

No Rio de Janeiro, os acidentes envolvendo motocicletas se tornaram um problema que vai além das questões de trânsito. O crescimento da frota de motos, aliado à popularização dos aplicativos de transporte e à fiscalização inadequada, tem gerado consequências diretas nas unidades de saúde pública. Isso se reflete no adiamento de cirurgias eletivas, na ocupação prolongada de leitos e na escassez frequente de sangue nos hospitais.

Apesar das iniciativas como o Maio Amarelo, que visa diminuir o número de acidentes e mortes no trânsito, as estatísticas continuam a aumentar. Motocicletas e veículos similares figuram entre as principais causas do aumento no atendimento a vítimas graves nas redes de saúde municipais e estaduais.

A situação é visível no Hospital Municipal Miguel Couto, localizado no Leblon, onde corredores e enfermarias estão repletos de pacientes que sofreram acidentes de moto. Esses indivíduos aguardam procedimentos ortopédicos enquanto lidam com a chegada constante de novas emergências. Em casos mais severos, cirurgias previamente agendadas podem ser adiadas.

Rodrigo Prado, secretário municipal de Saúde do Rio, destaca que essa pressão sobre o sistema hospitalar é significativa. “Os acidentes de trânsito deixaram de ser apenas uma questão relacionada ao transporte; agora são um desafio para a saúde pública”, afirma ele.

O secretário revela que a maior parte dos acidentados atendidos na rede municipal envolve motociclistas. “Sete em cada dez vítimas de acidentes no trânsito em nossa rede são motociclistas”, acrescenta.

Nos últimos dez anos, o estado contabilizou mais de 67 mil internações resultantes de acidentes com motos.

Dados do DataSUS, obtidos pelo Grupo IAG Saúde e pela Planisa, indicam que entre 2015 e 2025 houve 1.736 mortes decorrentes de acidentes com motos no Estado do Rio. No mesmo intervalo, foram registradas 67.180 internações em hospitais públicos fluminenses.

Somente em 2025, o estado enfrentou 10.106 hospitalizações devido a colisões envolvendo motocicletas. Isso equivale a um paciente internado a cada hora.

A cidade do Rio contabilizou 1.545 internações nesse mesmo ano, seguida por São Gonçalo com 1.230 registros. Todos os 92 municípios do estado tiveram pelo menos um caso de internação relacionado a acidentes com motocicletas.

Conforme informações da Secretaria Estadual de Saúde, os gastos com essas internações nas redes públicas totalizaram R$ 97 milhões entre 2019 e 2026. De acordo com estimativas do IAG Saúde e da Planisa para a década analisada, esse custo pode alcançar R$ 850 milhões, resultando em um gasto médio por internação de R$ 12.340,99.

A rotina hospitalar é impactada significativamente por essas emergências. Quando há vítimas graves nas unidades de emergência, o foco deve ser no atendimento imediato, levando ao adiamento das cirurgias eletivas previamente programadas.

Rodrigo Prado enfatiza que a combinação dos traumas causados pelos acidentes demanda maior consumo de sangue e prolonga o tempo dos pacientes internados. “O aumento nas emergências exige que eu reduza as cirurgias eletivas”, explica ele.

Além disso, em algumas situações há disponibilidade estrutural para os procedimentos cirúrgicos programados; contudo, a falta de sangue necessário impede sua realização pontual. “Por vezes temos sala e profissionais prontos para operar, mas sem sangue disponível não conseguimos proceder”, complementa.

No Hospital Estadual Alberto Torres (Heat), em São Gonçalo — referência em trauma complexo — também se observa uma realidade difícil. Nos primeiros quatro meses deste ano houve um aumento de 30% nas internações por acidentes de trânsito em comparação ao mesmo período do ano anterior; aproximadamente 80% desses pacientes eram motociclistas ou passageiros.

Segundo Marcelo Pessoa, coordenador do Centro de Trauma do Heat, esses casos frequentemente demandam cirurgias complexas e longos períodos hospitalares. “Esses pacientes muitas vezes estão em estado grave e precisam tanto de transfusões quanto podem ficar internados por meses”, informa ele.

Certa vez, um paciente envolvido em um acidente motociclistico foi tratado com até 20 bolsas de sangue durante sua internação.

Diante da pressão sobre os serviços hospitalares, dois hospitais municipais do Rio implementaram alas ortopédicas exclusivas para atender vítimas desse tipo de acidente: o Hospital Municipal do Andaraí e o Hospital Municipal Barata Ribeiro na Mangueira; juntos somam 62 leitos dedicados a essas ocorrências.

No Miguel Couto também se observa essa predominância: conforme Cristiano Chame, diretor da unidade, cinco dos sete pacientes internados em uma enfermaria eram vítimas de colisões envolvendo motos na última quarta-feira.

A natureza das lesões resultantes desses acidentes geralmente inclui fraturas complexas e múltiplas lesões que requerem cirurgia ortopédica intensiva e uso prolongado dos recursos hospitalares; muitos pacientes permanecem internados por semanas ou até meses seguidos.

A fiscalização nas ruas continua sendo uma questão crítica. As infrações cometidas por motociclistas são comuns: avançar sinais vermelhos, circular na contramão ou estacionar sobre calçadas são apenas algumas das práticas denunciadas por moradores em diversos bairros da cidade.

As associações comunitárias exigem uma presença maior das autoridades no tráfego urbano. Para Horácio Magalhães, presidente da Sociedade Amigos de Copacabana: “A fiscalização ainda é muito aquém do necessário.” Ele ressalta que frequentemente apenas uma viatura está presente nas ruas enquanto a quantidade efetiva agentes é mínima ou praticamente inexistente.

A presidente da associação dos moradores Botafogo também expressa preocupação com essa falta de controle: “Não tenho visto nenhum guarda atuando no gerenciamento do trânsito aqui”.

A Prefeitura do Rio informou que entre janeiro e abril deste ano foram aplicadas pela Guarda Municipal 168.174 multas relacionadas ao trânsito; as infrações mais comuns foram estacionamento irregular nas calçadas. Segundo o município, todos os agentes estão capacitados para atuar contra irregularidades visando melhorar o fluxo viário e promover civilidade no trânsito.

Além disso, houve um aumento significativo nas denúncias relacionadas às infrações cometidas por motociclistas através do Disque-Denúncia; nos primeiros quatro meses deste ano foram registrados 823 relatos — um incremento de 27% comparado ao mesmo período anterior quando houveram 648 denúncias.

As reclamações sobre condutas inadequadas envolvendo motos aumentaram também: passaram-se 276 para 325 denúncias — alta correspondente a 17,8%. Entre as infrações reportadas estão pegas perigosas na via pública, manobras arriscadas e condução sem habilitação válida ou transporte irregular de crianças por motoristas armados.

Marcelo Pessoa adverte que o crescimento contínuo desses acidentes já superou a capacidade assistencial da rede hospitalar local: “Com essa violência crescente no trânsito estamos constantemente enfrentando escassez nos estoques sanguíneos toda semana”.

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